sábado, 27 de dezembro de 2014

Ela, o perigo moderno

          Andar pelas ruas e ver pessoas concentradas em telas de celulares lendo ou mesmo dialogando já não é mais uma projeção futurística. A era cibernética vem trotando há tempos em passos velozes. Junta-se a essa era nossa necessidade de correr e correr no dia a dia. Não há tempo para nada. A tecnologia, então, vem suprir nossas necessidades de ir ao banco, nos informar, calcular, ver tevê, entreter-se e, claro, relacionar-se com o "outro".
          Já não é  mais novidade que há tempos a informática nos socializa com o outro. Ocorre, porém, que hoje socializar-se com alguém não é, necessariamente, com um ser humano. Nossas relações atuais são múltiplas e menos humanas. Cada vez mais fazemos das máquinas nossas amigas e parceiras.
          Esse cenário, com o acréscimo de outras situações, é apresentado diretamente e indiretamente no genialíssimo filme Ela, do diretor  Spike Jonze.
          A história gira em torno de Theodore (Joaquim Phoenix), um homem em vias de divórcio e vivendo sozinho. Ele trabalha numa empresa escrevendo cartas para terceiros, uma vez que as pessoas modernas desconhecem essa arte artesanal. As cartas abordam sentimentos de amor, desculpa, arrependimento, agradecimento... Dentro do alicerce maior do filme está a tecnologia. É esta que rege a maior parte da história e expõe o quão a humanidade já está dependente da informática. Theodore adquire para si um sistema operacional de computador, cuja voz que fala com ele é de uma mulher chamada Samantha (Scarlett Johansson). Aos poucos o programa vai assumindo consciência e surge uma forte paixão entre homem e máquina.
          O enredo já chama atenção. Ocorre, no entanto, que é impossível deixar de lado as costuras cirúrgicas do diretor Spike Jonze ao longo das duas horas de filme. As cenas iniciais mostram uma cidade muito moderna, gigante e tecnológica. É nesse espaço que começam as angústias visuais da obra. Pessoas caminham altamente concentradas em si ou em seus smartphones. A interação humana é rara.
          Em uma cena são enquadradas quatro pessoas de etnias diferentes: um caucasiano, um afro-descendente, um indiano e um chinês (bem, chinês ou japonês, tailandês...). O que se destaca nessa situação é que nenhum se comunica com o outro. Eis aqui a globalização que de nada nos humaniza ou torna nossas relações geográficas distantes agora próximas. A globalização é apenas para os produtos.
          As fortes cores também merecem um olhar mais atencioso do público. Theodore abusa do vermelho. Isso evidencia sua busca por uma paixão numa cultura que, de tão moderna e sofisticada, aniquila a golpes hercúleos os laços humanos.
          Para o protagonista, Samantha é o porto seguro no que tange o amor. Mas relações amorosas sempre são conflituosas, afinal, são relações amorosas. As cenas finais dessa paixão homem/máquina deixam uma sanção pessimista. O espectador se vislumbra com a tecnologia e sua interação conosco. Quem assiste pensa em arriscar isso que o filme oferece inicialmente, pois parece mais fácil quando o outro é uma máquina. Por fim, contudo, percebe-se que a única saída ainda para essa questão é a própria humanidade.
          Em certo momento do filme, uma metáfora visual escancara a condição da humanidade atual diante o poder tecnológico. Trata-se da cena em que Theodore senta-se em um banco e atrás um enorme outdoor eletrônico exibe o ataque de uma coruja a sua presa. A presa visualmente  no contexto é o próprio Theodore. Tem-se aqui a tecnologia dominando a vítima e na iminência de devorá-lo. É preciso acordar e usar a inteligência para sobreviver.
          Assistir a Ela é um desafio. É um filme que requer dedicação mental para aceitar que há certos caminhos passíveis de serem evitados e outros inevitáveis. A tecnologia ao mesmo tempo que conforta, nos rouba a coragem de enfrentarmos nossos problemas pessoais e sociais. Nenhuma máquina supri o homem, como também nenhuma invenção é capaz de tirar de nossa índole a capacidade do erro. A tecnologia não tem a capacidade de corrigir nossos erros na relação humana. Nós somos a doença e, poeticamente, a cura.

Vitor Miranda