domingo, 8 de novembro de 2015

Dorian Gray e a feiura da beleza

Cultuar o corpo e exaltar a juventude não são novidades na História da humanidade. Desde tempos remotos como, por exemplo, na Grécia Antiga, a prática era comum e cultural. É perceptível isso na produção artística grega e mesmo nos seus mitos. Os deuses gregos sempre eram representados em corpos juvenis, dotados de beleza física e vigor. Anos e anos se foram, e dando um pulo na contemporaneidade, vemos que o culto à beleza e à juventude permanecem vivos e se multiplicando.
Ainda que a crise econômica atinja consideravelmente setores comerciais, os cosméticos continuam em alta por essas bandas. O Brasil lidera mundialmente o número de cirurgias plásticas efetuadas. Colocamos nos comerciais de diferentes produtos o rosto e corpo padronizados da beleza. Academias nascem a cada quarteirão. Amamos ser bonitos. Acima de tudo, ser jovens.
Esse mesmo amor fora eternizado num clássico apaixonante da literatura mundial. Trata-se de O Retrato de Dorian Gray, do polêmico irlandês Oscar Wilde.
No romance de Wilde, Dorian Gray é um dândi inglês apaixonado pela beleza e juventude que tem em si. Contrata um pintor, Basil, para fazer um retrato. Ao pintar o retrato de Dorian Gray, este não esconde a admiração que passa a nutrir pela recente obra de Basil. Para Gray é inaceitável que ele envelheça enquanto o quadro será jovem, sempre jovem. Rugas, barbas e cabelos brancos não farão futuramente parte daquela imagem criada na tela. Por que não o quadro envelhecer e eu ficar jovem e belo para sempre?  – pensa Dorian.
O protagonista afirma que faria tudo, tudo mesmo para ser jovem eternamente. Inclusive venderia a própria alma se preciso fosse para tal aquisição. Nasce a metáfora, nasce uma profunda reflexão no leitor. Somos contemporaneamente Dorian Gray? Fazemos de tudo para atingirmos o padrão do belo?
Mais do que gregos e renascentistas amamos o belo e a juventude. Postergar a velhice nos domina. Ou mesmo ignorar que enrugaremos e teremos, futuramente, fila preferencial e desconto na farmácia. Ser idoso não consta nos nossos pensamentos e planos. Ser chamado de senhor ou senhora soam como punhaladas nos ouvidos. Pedimos um eufemístico “você” no tratamento, pois a liinguagem também envelhece as pessoas. Ou fazem-nas se lembrar de que estão velhas.
Ler O Retrato de Dorian Gray faz o leitor perceber que vendemos nossa essência facilmente por padrões impostos. Faz perceber que a preços modestos leiloamos o que somos e compramos a preços estratosféricos o que outros querem que sejamos. Alimentamos a vaidade com presunção de uma beleza e juventude eternas. Do mesmo modo de Dorian Gray, não analisamos as consequências possíveis (algumas punitivas) a que nos sujeitamos.
O desejo absurdo e doentio de Dorian custou caro. Com o passar do tempo ele não suportou a eternidade a que estava fadado e sucumbiu, pois ganhara no físico e perdera importantes valores de sua vida. Assim fazemos muitas vezes. Ganhamos e sucumbimos.
As redes sociais se esbanjam de falsa felicidade, corpos com teimosia de eternos. Ninguém posta fotos celebrando a própria velhice, a bengala e o assento preferencial em ônibus. É tudo um festival de vaidade em que ganhar “curtir” é o doce champanhe da vitória. Entretanto, esquecemos que champanhe tem álcool e desenvolve tumores no fígado (malignos, viu?). Se Dorian Gray tivesse Instagran, fatalmente doaria 24h do seu dia a selfies e alimentaria infantilmente seu perfil imagético. Viveria a ilusão do retrato que o dominou. Seria mais fácil compreendê-lo e ser seu cúmplice, seu retrato.
Dorian Gray é um exercício provocativo à reflexão sobre o que somos e o que podemos nos tornar. Oscar Wilde certamente entendia sobre a beleza e transcendeu o significado dela ao escrever um livro tão contundente e atemporal. Gray nos berra a cada letra do romance sua insuportável beleza. Insuportável porque ela teve um preço alto e imperdoável.
Dorian pagou a perpetuação da beleza com a alma. Hoje se paga com a perda da identidade essa tentativa de eternizar-se belo.
Ser bonito sem se punir é bom, produz porções de felicidade certamente. Mas pagar o preço que não se deve torna o belo feio, horrível, deprimente. Dorian Gray ensina, dolorosamente ensina muito sobre a beleza.


Vitor Miranda

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Dom Quixote, leitura que se renova

Sempre trabalho com a leitura de D. Quixote no 7° ano. A obra, por questões diversas, que leio com a garotada é uma adaptação. Quando ano após ano retorno ao livro máximo de Cervantes e da literatura espanhola, há certamente uma nova experiência à minha espera.
          Ontem iniciei com os alunos a leitura das aventuras desse louco sensato cavaleiro. Discussões iniciais sobre o romance já compensaram bastante o trabalho.
          Inicialmente, as proezas vividas por Quixote e seu fiel Sancho Pança já nos provocam uma reflexão aparentemente simples, mas reveladora de uma complexidade enorme. É fácil separar o real da fantasia? Devemos ter fantasias? Quais delas nos servem? Quais delas são moinhos de vento que nos desafiam hoje e ontem?
          Ler continua sendo, há tempos, uma forma prazerosa e muito construtiva a nossas inúmeras caminhadas. Os abruptos e suaves caminhos podem ser trilhados ao lombo do Rocinante quixotesco ou do asno paciente de Sancho. Quem escolhe é o leitor.
          Muito nos promete a leitura dessa adaptação de D. Quixote. Meu entusiasmo para reler o livro não é diferente da primeira vez que li a obra. Para mim, é uma eterna revelação o Quixote.
          Avancemos já contra os gigantes moinhos de vento tão diversos e presentes aqui fora!
Vitor Miranda

domingo, 26 de julho de 2015

Punindo Maria

Fundamentalismo religioso tornou-se um assunto frequente na mídia. Ele é um tumor maligno que não se ausenta no Oriente e nem no Ocidente. Exemplos são fartos, infelizmente. É a menina levando pedrada após sair de um culto candomblé, são bombas explodindo no universo oriental, monumentos históricos destruídos e pessoas exterminadas. Tudo tendo o arsenal pútrido daqueles que elevam ao máximo seus ideais divinos, às vezes contrariando a paz proposta por seus respectivos deuses. O mundo não se tornou mais lúcido mesmo atingindo altos patamares tecnológicos. Há ignorância e imposição vazando por vários poros. Não se segue o deus mas aquilo que meu pensamento extremo impõe. A cerca disso, ilustra brilhantemente o assunto um recente filme alemão, 14 Estações de Maria.
          O filme gira em torno de Maria, filha de pais católicos fundamentalistas. A menina tem 3 irmãos, um deles mudo. A mudez chega a ser vista pela família como vontade divina, um teste de Deus para ver se a fé deles realmente existe e está acima de tudo.
          Os pais sufocam Maria com uma tradição religiosa de hermetismo absurdo à modernidade. Vetam aos filhos, por exemplo, amizades e músicas não ligadas à religião da família. Maria absorve a situação toda e sua liberdade é atrofiada. O título é uma referência às etapas da vida de Jesus Cristo.
          Há uma série de elementos bem explorados no filme. O discurso da mãe, principalmente, é medieval e assombra Maria no dia a dia. O diretor não esconde nos 14 quadros / capítulos o diálogo cinema e teatro. A câmera em cada um dos capítulos do filme tem um único enquadramento. Não há ângulos diversos e as cenas funcionam como um palco.
          A simbologia da trindade salta aos olhos. Diversas vezes nota-se a presença de uma tríade. São 3 pessoas num espaço, 3 cadeiras, 3 bancos do carro em destaque, 3 estantes de livros. A montagem é clara e não exige muito esforço para ser percebida.
          Um  momento dramático e cômico inesquecível do filme ocorre na escola durante a aula de educação física de Maria. A professora coloca a música The Look, da dupla sueca Roxette. A intenção é tornar a aula atrativa, animada. Nesse momento, Maria toma uma atitude como clara consequência da imposição religiosa da família. Ali, naquela música, certamente o demônio está presente e é preciso combatê-lo. Maria vai à luta, não pode tolerar aquilo.
          Em tempos de carros velozes e formigas no cinema, dar atenção a produções europeias como essa vinda lá da Alemanha dá esperança de poder, ainda, colher na sétima arte profundidade artística. Entreter-se não é errado, é bom. Fazer somente isso é abrir mão das possibilidades de enriquecimento mental proporcionadas pelo cinema.
          14 Estações de Maria é um filme que acerta, e muito, por não ser dogmático. Engana-se quem pensar que se trata de punir a religião e elevar o ateísmo ou mesmo a ciência. A obra é um painel minucioso e convidativo para nos propor uma reflexão séria a respeito do fundamentalismo religioso. No final, não resistimos ao convite.
Vitor Miranda  

sábado, 18 de julho de 2015

O sermão e o Cunha

            A resignificaçao dos sermões barrocos de Padre Vieira, mais de quatro séculos depois, é espantosa. Um de seus textos mais líricos, belos e reflexivos é o sermão de Santo Antônio. Resumidamente, trata-se da pregação àqueles que podem mas se recusam a ouvir, consequentemente, o orador troca seu público para os que ouvem-no. Nesse sermão Antônio deixa de pregar aos homens e vai pregar aos peixes. Estes têm o dom de apenas ouvir e não falar. Aqueles podem ouvir e falar, entretanto não fazem questão de ouvir ensinamentos.
            Pois bem, dada a recente denúncia de corrupção contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, há manifestações interessantes no universo de comentários na internet. Há muitos que ignoram as denúncias não querendo ouvir as suspeitas de corrupção contra seu líder conservador, retrógrado. Comportam-se como os homens do sermão, quando deveriam ser os peixes e não nadar contra o bom senso. Ora, se a denúncia os faz suspeitar de um, a outra denúncia não deveria ter tratamento distinto. Isso é desonestidade intelectual e política.
            Viera continua sendo fundamental leitura e releitura por aqui.

Vitor Miranda

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Velas Poéticas

            É impressionante como o Nordeste brasileiro produz tantos músicos admiráveis. Nem citarei a penca deles, pois se faz desnecessário o ato. Entre esses tesouros musicais, brilha Raimundo Fágner com raios fúlgidos particulares. Letras? Várias. Um exemplo? "Mucuripe", em parceria com outro gênio nordestino, Belchior.
            A construção linguística se vê no início, com os versos conotativos As velas do Mucuripe / Vão sair para pescar. Aqui a linguagem figurada explorada é a metonímia, nesse caso trocando o conteúdo pelo continente. Ou seja, quem pescará são os pescadores, e não as velas. Estas simbolicamente representam aqueles.
            Recebe destaque também o lirismo plástico em Calça nova de riscado / Paletó de linho branco / Que até o mês passado / Lá no campo ainda era flor.  Novamente uma troca, não linguística, e sim pragmática.
            Esse pragmatismo, comum há tempos na sociedade humana, simplesmente consiste em pegar a matéria-prima e transformá-la em bens materiais banais, como a calça e o paletó citados na canção. Enquanto flor, essa matéria-prima está no campo sem serventia alguma aos olhos do senso comum. Ganha protagonismo apenas quando é arrancada da terra e vai para o ventre da fabricação têxtil para renascer em forma de roupa. Essa metamorfose, campo-fábrica, é triste fora dos olhos do senso comum, mas ainda assim bela, tristemente bela.
            Mucuripe, com sua letra e melodia, é prova de que a música (quando profunda) é uma arte cumpridora de um dos papéis fundamentais da produção artística: tocar a sensibilidade humana expandindo toda a sua potencialidade.

Vitor Miranda

quinta-feira, 9 de julho de 2015

As viagens em Next Year

            As diferentes manifestações textuais se enriquecem, e muito, quando dialogam competentemente com gêneros ou textos aclamados (intertextualidade). Outras vezes o diálogo intertextual, implícito ou explícito, se comunica com acontecimentos da realidade. Quando isso ocorre – obviamente –, é preciso o leitor estar a par do repertório ali explorado. Além disso, o leitor, não propriamente da linguagem verbal, precisa estar atento e, dependendo da profundidade das referências intertextuais, aguçar a sensibilidade para captar a rede de informações diante de si.
            Um exemplo bem ilustrativo de referências a fatos e obras terceiras pode ser observado no excelente vídeo-clipe Next Year, da banda norte-americana Foo Fighters.
            Lançado em 2000, o vídeo apresenta uma das músicas de trabalho do álbum There's Nothing Left to Lose. Nas cenas, aparecem os quatro integrantes da banda vestidos de astronautas rumo ao espaço. É evidente a referência à viagem do homem à lua em 1969. Desse modo, é importante ter esse fato em consideração para fazer as leituras permitidas pelo vídeo da banda.
            A licença poética se nota, entre outros porquês, pela apresentação musical dentro da espaçonave. O protocolo da Nasa dá espaço à música. Esta ganha o destaque e dele não abre mão.
            A letra de Next Year evidentemente não é sobre a conquista da lua e nem da corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos durante a Guerra Fria. Os versos são de teor figurativo, poético. Claro que em determinadas passagens como, por exemplo, I'm in the sky tonight / There I can keep by your side, o diálogo com viagem espacial se estabelece e nasce o vídeo-clipe, a intertextualidade.
            Esse tipo de intertextualidade recebe o nome de paródia, pois retoma um conhecido texto/situação aplicando-o em outro contexto. Nesse trabalho também está presente o humor, que pode ser ácido ou não. Em Next Year as imagens com certeza dispensam o humor ácido de certas paródias e põem em prática a suavidade desse recurso da linguagem.
            O humor é notável na troca do nome da Nasa pelo da banda, seja no foguete ou no uniforme. Ademais, o gesto clássico da bandeira dos EUA fincada no terreno lunar cede lugar a uma bandeira com FF, ou seja, iniciais do nome da banda. Essa mudança nominal não é meramente manifestação de um humor intencional. A troca simboliza a conquista pessoal da banda, e não mais a de uma nação ou da humanidade.
            Posteriormente, o humor sai de cena e imagens em quadros sucessivos, no final, concluem com uma crítica nada atemporal, infelizmente. Trata-se da ironia humana de vencer limites com alta tecnologia (nesse caso desbravando o espaço) e ser incapaz (ou egoísta?) de vencer problemas sociais crônicos por aqui. As cenas de guerra sugerem isso.
            Merece nota uma imagem rápida aos 2min12: um triângulo com feixes coloridos. A imagem é semelhante à capa de um clássico álbum, de 1973, da banda britânica Pink Floyd. Sugestivamente, o nome do álbum é The Dark Side of the Moon. Tanto o clipe do Foo Fighters quanto Pink Floyd fazem referência à lua (Moon).
            Foo Fighters, portanto, dialogam com o evento espacial de 1969, com um clássico álbum progressista de 1973 e apresentam isso tudo em um vídeo-clipe produzido em 2000. O múltiplo temporalismo dessa gravação áudio-visual é de grande beleza e qualidade. Conhecer as referências presentes no vídeo-clipe de Next Year amplia a compreensão da obra e leva o espectador/leitor à essência proposta por banda e direção de arte nessa gravação.

Vitor Miranda

domingo, 17 de maio de 2015

Sonâmbulos

          Quando se fala em literatura em língua portuguesa, sem dúvida nos direcionamos para dois territórios dessa produção: Brasil e Portugal. Mas não são apenas esses dois países que produzem literatura no idioma materno de Camões e de Fernando Pessoa. É comum poucos se lembrarem que lá na África, por exemplo, também se fala e se produz alta literatura em português. E por aquelas terras, considerando a língua portuguesa, um dos destaques é o moçambicano Mia Couto. Autor de grande talento e de uma boa bagagem de livros publicados há tempos.
          Um dos romances de destaque de Mia Couto é Terra Sonâmbula. O livro foi lançado em 1992. Nele se narram elementos do folclore local moçambicano intercalados com outras narrativas. Resumidamente, Terra Sonâmbula apresenta dois personagens centrais no início, o velho Tuahir e o jovem Muidinga. Ambos estão vagando por um cenário de guerra civil, em que vários horrores bélicos podem ser constatados explicitamente pelo leitor. Corpos mutilados e mortos, destruição de vilas, de ônibus, ausência de perspectiva de um bom futuro, tristeza... enfim, uma enciclopédia detalhada de como a humanidade consegue, com poucos esforços, ser frequentemente desumana.
          Já no começo do livro, Muidinga encontra uma mala com alguns cadernos perto de um cadáver. São de um sujeito chamado Kindzu. Nos cadernos, há episódios pessoais, folclóricos de Kindzu. Tais histórias passam a fazer companhia principalmente a Muidinga, que as lê, e a Tuahir, que ouve a leitura do companheiro. São relatos poéticos repletos de uma cultura exótica, espiritual e de muitas peripécias. Tanto ingrediente sedutor assim faz, momentaneamente, Muidinga esquecer o inferno bélico ao seu redor e penetrar nos cadernos, ainda que as histórias de Kindzu também estejam recheadas de violência e outras tristezas.
          Das grandes virtudes de Mia Couto, certamente destaca-se seu primor linguístico. A linguagem é rica e sensivelmente sonora. Ela capta a atenção do leitor e faz cada palavra sonorizar aos ouvidos, ora como melodia suave, ora como um estrondo para as aberrações produzidas pelo ser humano. Tudo é muito bem organizado e atinge seu propósito comunicativo. Mia Couto, lembrando nosso Guimarães Rosa, não consegue escrever sem poetizar as palavras e nem deixar de lado o linguajar típico da região retratada. Para muitas palavras, o autor recria seus significados e as estrutura sem as amarras sintáticas tradicionais. A palavra de Mia Couto nessa sua Terra Sonâmbula não apenas diz, mas também se mostra com vida e plena de liberdade.
          Muidinga, ao apresentar as histórias dos cadernos, desliga o plano de sua realidade e insere o leitor nos eventos de Kindzu. O livro se divide, portanto, em dois planos: o do presente e o das histórias de Kindzu.
          O universo daquilo que se encontra nos cadernos é mágico, fantástico. Quem já leu Gabriel Garcia Márquez sem dúvida identificará lapsos dele em Mia Couto.
          Ler Terra Sonâmbula é uma experiência impactante. A vontade que se tem após finalizar a leitura é de correr atrás de outro livro de seu autor. Motivo? Continuar a descobrir muito sobre um universo pouco divulgado na literatura em português: uma África rica em letras, como também são as de Portugal e Brasil. Mia Couto confirma essa riqueza africana em cada página de sua Terra Sonâmbula. Quem ainda não leu, é bom começar a ler ontem.

Vitor Miranda

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Os guris

            Em 1981 o consagrado compositor e cantor Chico Buarque lançou pela gravadora Philips o disco Almanaque. Entre as canções gravadas nesse álbum está O Meu Guri. A letra retrata o cotidiano de um garoto que vive com sua mãe em um morro. Para sobreviver, o menino pratica pequenos furtos os quais a mãe, devido sua ingenuidade, não consegue tomar conhecimento.
            Infelizmente, mesmo mais de três décadas após seu lançamento, o guri de Chico marca presença cativa na realidade brasileira. É comum em noticiários ou nas nossas cidades nos depararmos com o enredo dessa música. A canção de Chico Buarque parece uma profecia, sem direito a nenhuma comemoração, em pleno século 21. Não à toa que hoje se discute muito sobre a nada inteligente diminuição da maioridade penal. É provável que em breve não tenhamos mais guris de 16 anos, pois estes já serão adultos perante a lei.
            Na letra de Chico é bom ressaltar o papel do eu lírico, no caso, a mãe do guri. Chico dá voz a uma mulher ingênua e carinhosa com o filho, ainda que a vida a deixe frente a frente com vários dramas, como o da fome (Já foi nascendo com cara de fome) e o desafio de se criar uma criança sem a figura paterna, uma vez que em nenhum momento da letra o pai surge ou é citado. A conclusão da história desse menino é trágica. Ele não se torna um adulto. Torna-se mais uma estatística de grave problema social, em que matar o pequeno criminoso é a regra míope de justiceiros, quando educá-lo deveria ser o primordial. Mas educação leva tempo. Silenciar nossos guris no mato com o papo pro ar é mais rápido e prazeroso.
            A música escancara ainda a questão da formação da identidade do indivíduo na sociedade capitalista. O compositor evidencia que a mãe do guri só consegue se identificar como gente a partir do momento que o filho rouba e dá a ela uma série de objetos. Assim, a mulher antes marginalizada passa a ter, ou seja, está inserida no esquema padrão da sociedade que dita as regras a serem obedecidas.
            Ao ouvir atentamente esse guri de 1981 e olhar ao nosso redor, fica difícil separar o que é ficção e realidade. Levando em consideração o tema e a narrativa presentes nessa grande música de Chico Buarque, percebe-se que a ficção, inegavelmente, é a nossa realidade. Por um bom tempo, enquanto se debate a inoperante maioridade penal aos 16 anos, ainda encontraremos vários guris, infelizmente, no mato de papo pro ar.

Vitor Miranda

domingo, 29 de março de 2015

Selma: a marcha para todos

          A História de ontem e a contemporânea dão muitos exemplos de como o mundo humano é repleto de injustiças a serem superadas – sejam elas políticas, sociais ou religiosas. O cinema vez ou outra, com qualidade ou não, nos traz questões relacionadas a essas temáticas e nos refresca a memória. O recente longa-metragem Selma, da diretora Ava DuVernay, traz no roteiro a cinebiografia do conhecido pastor negro Martin Luther King. O filme foca a década de 1960, quando King liderou uma passeata nos EUA, da cidade Selma até Montgomery, capital do estado do Alabama.
          Nessa marcha histórica, os manifestantes pleiteavam o direito de votar, proibido a pessoas negras. O filme escancara o racismo norte-americano da época e provoca, sem ser panfletário, uma reflexão sobre o assunto. As cenas são recheadas por potentes diálogos críticos. A eloquência de Luther King, um exímio orador, é muito bem personificada pelo ator David Oyelowo. É certamente o ponto elevado das duas horas e oito minutos de filme. Agrada a todos apreciadores de um espetacular discurso. King inspira o bom falar.
          Filmes históricos ou de célebres pessoas como Martin Luther King às vezes dão a falsa impressão de serem de épocas remotas. E o duro é que Selma não é de um tempo caduco. Os fatos que ali são retratados não têm nem cem anos. Historicamente, são quase saídos da maternidade. Isso é preocupante. O que se narra no filme, entre outros, é uma das piores máculas da nossa humanidade: o racismo.
          Dentro desse sórdido ingrediente estão a segregação e privação de direitos básicos. Selma é uma obra universal quando encarados o desafio e a necessidade de se lutar pela igualdade de direitos. Na democracia qualquer cidadão é igual ao outro e o voto é um bem comum.
          Selma  tecnicamente apresenta mínimos "defeitos". O tom triste da música em certas cenas pode ser encarado como clichê para alguns exigentes de inovação total. Não há a preocupação, excessiva, para comover o espectador com a parceria cena triste e melodias chorosas. É apenas um elemento coesivo com o evento. O importante é se fixar na oratória de King e refletir profundamente nas ideias por ele defendidas de uma sociedade mais justa, em que independentemente de raça ou credo as pessoas possam viver harmonicamente. Não é fácil. Mas é possível levar adiante esse sonho de Luther King e modificar positivamente o quadro das injustiças. Isso tudo usando apenas uma arma: o pacifismo.  
          Assistir a Selma é uma boa tarefa de aprendizado de como devemos evitar repetir erros de um passado não tão distante. A obra de Ava DuVernay não é sobre a luta de um homem, de um mártir, é sobre o tumor hipermaligno do racismo, do preconceito que assola a humanidade. O cinema pode contribuir para sermos tolerantes. Selma é a marcha para todos nós. Marchemos!

Vitor Miranda

domingo, 15 de março de 2015

A Teoria de Tudo e a virtude da caricatura

          Michael Keaton disse dias atrás que ele deveria ter sido contemplado com o Oscar de melhor ator por Birdman. Sem dúvida ele fez brilhantemente o protagonista do filme. Keaton ainda complementou seu comentário dizendo, acidamente, que Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) o venceu porque Hollywood sempre contempla filmes-doença.
          Vi ambos os filmes. E me desculpe, Michael, mas discordo de você quanto à recente premiação de melhor ator. Eddie mereceu, mesmo Birdman sendo um filme superior à Teoria.
          A Teoria de Tudo é a cinebiografia do consagrado físico inglês Stephen Hawking, paralisado desde a década de 1960 com esclerose lateral amiotrófica (ELA). À época, os médicos deram a ele, após o diagnóstico, mais dois anos de vida no máximo. Anos e décadas seguintes mostraram que a ciência também erra.
          Para mim, o ponto alto de A Teoria de Tudo, no quesito ator,  foi explorar um recurso difícil de ser bem administrado em um gênero como a cinebiografia: a caricatura. Por se tratar de um drama, essa dificuldade se intensifica consideravelmente.
          A caricatura é um recurso frequente no cinema, primordialmente na comédia. Tal gênero exige personagens tipos, caricatos. Daí que ora ou outra vemos a caricatura (exagero físico ou de comportamento) do sovina, preguiçoso, ignorante, vagabundo, corrupto, glutão, valentão, covarde, obsessivo pelo físico e por aí vai.
          Em A Teoria de Tudo Eddie Remayne, de fato, personificou a aparência e enfermidade do biografado. Quem assiste não fica hipnotizado por um aspecto ou outro dessa genial caricatura, mas sim por sua totalidade, pelo conjunto de caracteres que a compõe. O ator usa o exagero sem extrapolar.
          Guardadas as semelhanças e (muitas) diferenças, Remayne está para Stephen Hawking assim como Chaplin para o eternizado vagabundo. É o matrimônio feliz e sem divórcio entre ator e personagem caricato.
          A caricatura inicial no filme, do estudante nerd, não diz respeito especificamente a Hawking. Diz respeito ao nerd em geral, pelo menos ao das décadas de 1950 e 60. É apenas nessa que Eddie não é brilhante. É mais um ator numa cena banal. Talvez Michael Keaton possa se apegar a esse episódio do filme para se defender com seu Birdman. No entanto, é na paralisia que Eddie mostra todo seu dinamismo artístico. Desse momento em diante a caricatura, sim, atinge seu ápice na história. Por esse motivo, e por outros, Hollywood fez bem ao apontar o vencedor da categoria ator 2015.
          O filme ainda abre espaço para algumas licenças poéticas, como a epifania no fogo da lareira que incendeia uma ideia em Stephen Eddie Hawking. Somado a isso, há certas garoas de humor em algumas falas de Eddie para abrir espaço à fugacidade, ainda que efêmera, na sofrida vida de um dos maiores físicos do século passado.
          O diretor de A Teoria de Tudo, James Marsh, foi um verdadeiro maestro na direção e seu músico, Eddie Redmayne, um primoroso executor da caricatura. Fez habilmente desta uma virtude cinematográfica e, por consequência, uma das espinhas dorsais do filme. Quem ainda não viu, está perdendo uma célebre atuação. A Teoria de Tudo pode e deve orgulhar-se de seu ator principal. Sorte nossa.

Vitor Miranda

domingo, 1 de março de 2015

Nossa selvageria

            Criar narrativas curtas de grande qualidade não é uma tarefa das mais fáceis. É um terreno perigoso, delicado e exige maestria. Na literatura, há contistas célebres como, por exemplo, Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Clarice Lispector é outra desse time. No cinema, raros são os cineastas que têm essa proeza. A linguagem cinematográfica comumente apresenta narrativas em torno de duas horas. Fazer um filme com meia hora ou menos de duração soa estranho para o espectador e o mercado. A saída para filmes com curtas histórias é ter várias histórias no mesmo filme. Mas disso surge um embaraço na cabeça do cineasta. É preciso costurar essas histórias independentes de forma que haja entre elas um ponto em comum. Feito isso, o trabalho ganha palmas.
            O argentino Relatos Selvagens, do diretor Damián Szifron e produção do premiadíssimo Pedro Almodóvar, consegue com enorme competência a coesão do mosaico de suas seis narrativas independentes. São histórias de tirar o fôlego. O filme ainda tem o privilégio de contar em seu elenco com o talento de Ricardo Darín. Ele é o protagonista da quarta história e faz uma exibição genial, pra variar.
             Relatos Selvagens escancara a nossa selvageria humana ao expor em todas as histórias o quão somos violentos e sedentos por vingança. Pode ser a vingança adormecida desde a infância ou uma momentânea. Situações são diversificadas. Um voo, agiotagem, trânsito, uma multa, um casamento.
            O filme é bem construído e mínimos são os defeitos. Apenas a quinta narrativa, sobre um rapaz embriagado e da alta classe social que atropela e mata uma mulher grávida, deixa indícios lá pela metade a respeito do desfecho. Mas ainda assim a previsibilidade não macula a obra.
            Duas histórias merecem um destaque especial. Uma delas é logo a primeira narrativa. Uma série de eventos negativos na vida de um homem parece estar adormecida e, quando se manifesta, é como um vulcão inativo há séculos cuspindo de repente toda a sua fúria antes letárgica. A outra história é a quarta, protagonizada por Ricardo Darín. É a vingança de um homem que se vê injustiçado pelo sistema, no caso, leis de trânsito. Em meia hora temos momentos reflexivos proporcionados pela argúcia argumentativa do personagem de Darín. Há também um certo humor refinado em alguns momentos dessa narrativa.
            Estranhei o filme não ter vencido o Oscar na categoria filme estrangeiro. A estatueta ficou com o polonês Ida. Vi este também. Filme razoável, de temática judia e com uma fotografia belíssima, mas longe de ser melhor que Relatos Selvagens. Não mereceu vencer definitivamente. Mas a academia tem lá suas convicções/interesses.
            Esperei muito para assistir a Relatos Selvagens. Certamente cada segundo da longa espera não foi em vão. As duas horas de filme confirmam algo que há tempos é evidente: o cinema argentino está no seu auge e não deve atualmente nada de nada a nenhuma produção cinematográfica, seja ela estadunidense ou europeia. E com Ricardo Darín, aí já é apelação.

Vitor Miranda      

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O voo de Birdman

          Depois de esperar com certa ansiedade devido às dezenas de bons comentários a respeito dele, assisti a Birdman, um dos favoritos ao Oscar 2015. Não achei uma obra-prima, mas é um bom filme. Sua qualidade de destaque, na minha visão, é ele ser direto no que diz na maior parte de suas duas horas. Há críticas visíveis e metáforas quase denotativas.
          O filme é uma metalinguagem bem lúcida do mundo artístico, aqui ilustrada pelo teatro e o cinema. Em ambos seu protagonista Riggan Thomson, numa clamorosa interpretação de Michael Keaton, escancara o que ele foi e é. No cinema do passado ficou seu mais ilustre trabalho, o Birdman, que dá nome ao filme. O presente mostra um ator e diretor de teatro entre a cruz e a espada. Melhor é fazer arte ou sucesso apenas? Os dois são possíveis concomitantemente?
          A simbólica esquizofrenia de Riggan ouvindo às vezes e outras vendo seu homem-pássaro é uma evidente metáfora da prisão que se tem ao garantido de estar nos holofotes. Garantir o sucesso com um super-herói, ainda que haja qualidade inoperante nele, é uma quase entrega do protagonista. O mundo das celebridades seduz o ego, rega a vaidade com águas dopantes e amplia a sede do quero mais e mais.
          Somam-se a isso aspectos secundários, como conflitos familiares, reabilitação da filha drogada, ator que enxerga a própria vida quando ela é ficção (nesse papel está Mike, bem representado por Edward Norton) e o que acho o grande destaque dos secundarismos do filme, os bastidores do palco. Por trás das cortinas está o que fica escuso à plateia. A atriz que clama por reconhecimento, a fraqueza emotiva, problemas logísticos e financeiros para se levar ao palco uma encenação, falar não ao ator não-talentoso, saber separar o real do fictício, medo do fracasso entre outros.
          Birdman voa alto no que se propõe. É um filme que não desperdiça nossas duas horas diante sua narrativa. As críticas não são pedantes. São sinceras e transparentes na boa maioria das cenas. Não é realmente obra-prima da sétima arte, mas certamente está entre os melhores filmes produzidos ultimamente da famigerada indústria cinematográfica.

Vitor Miranda

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O coronel e nós

       
Terminei há pouco de ler mais uma grande obra da literatura mundial. Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez, segunda obra do autor e lançada em 1957. Uma novela de precisão concisa e angustiante. Nela, um coronel aguarda há vários anos, toda sexta-feira, a chegada do carteiro com a correspondência de sua merecida aposentadoria. No passado, esteve ele na guerra civil de seu país. Vivem juntos o coronel, sua esposa asmática e um galo, lembrança do falecido filho do casal. O rapaz, um ano atrás, fora assassinado depois de ser alvejado por estar numa rinha distribuindo panfletos subversivos.
          É angustiante a espera do coronel, passando por dificuldades financeiras há tempos. Além, é claro, da dor nunca cicatrizada pela perda de seu único filho.
          As quase cem páginas tão bem construídas por García Márquez podem ser, na sua essência, resumidas em uma palavra: privação.
          As privações narradas ao longo dessa narrativa se apresentam tanto no plano físico quanto abstrato. No plano físico há a privação do dinheiro e suas consequências. O casal já com poucos recursos fica entre a cruz e a espada quanto à comida. Alimentam-se as bocas humanas ou o galo? Alimentar o galo é investir no futuro? Vai ressarcir com vitórias nas rinhas?
          A saúde é outra privação. A esposa do coronel é extremamente asmática e, lógico, privada de uma saúde taurina. Vive boa parte do tempo na cama. Mesmo debilitada é o pilar principal do coronel para ainda ter vontade de viver.
          Liberdade de expressão é mais uma privação. Esta, todavia, não se restringe ao casal. É a privação que emudece e deixa quem a infringe sempre alerta por uma provável retaliação do poder constituinte. A subversão tem um preço alto, assim como pagara o filho do coronel com a vida.
          É evidente que a privação mais latente da novela é o filho. Há tristeza pela falta do dinheiro, há tristeza pela saúde frágil da mulher do coronel, há tristeza pelas bocas fechadas e há um universo de tristezas pela morte do filho. Augustín, o filho, é a privação que sempre será privação para o casal. As outras privações ainda podem ser resolvidas, no entanto, a do filho é perda eterna e dor aguda, que se perpetua na imagem do galo.
          Gabo, como era chamado carinhosamente Gabriel García Márquez, não deixa para segundo plano a preocupação com a linguagem. Choca com beleza o leitor. Dá a ele metáforas insólitas, inesperadas. Em outros momentos apresenta termos "sujos", como no último parágrafo do livro, de uma só palavra. Essa quebra linguística, esse uso não-poético da linguagem é para aproximar a literatura de nossa vida real. É mostrar que o sublime da linguagem, que é a literatura, também está de mãos dadas com o banal.
          Recebe destaque também o aspecto visual e sonoro presentes nas letras de Gabo. Parece, por exemplo, ser interesse grande do autor a visualização da ferrugem da lata de café no início da história. O chão de barro batido. A palha da casa. Tudo se encaixa num mosaico de precisão única e ótica.
          O ouvido do leitor parece unir-se ao do coronel quando este, tentando não ouvir mas ouvindo, se angustia com uma goteira no teto. Quer ignorá-la e dormir, mas há poderes além da capacidade humana. A impotência vence o sono e tortura o coronel com pensamentos corrosivos.
          Ninguém escreve ao coronel é triste. É uma história de privações dolorosas. Porém seu autor com maestria atenua para o leitor essas experiências por meio da linguagem e o carrega amigavelmente durante a leitura. Ficamos cúmplices do coronel e sua esposa em vários momentos. Sofremos um pouco com eles no balaio das privações. Sofrimento maior, contudo, é privar-se de ler esse livro e deixar de aprender um pouco mais daquilo que está ou pode estar na nossa vida particular e mesmo na social.
Vitor Miranda 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Redação Zero

          Muitos se alarmaram com os mais de 500 mil candidatos que zeraram a redação do Enem 2014. A notícia parece ter sido uma surpresa. Mas sejamos honestos: não há surpresa nesse episódio. Por quê? Vamos lá!
          Os poucos candidatos de notas 1000 foram quase unânimes quando perguntados sobre qual caminho seguir para esse resultado. Leitura e prática persistente de escrita.
          O Brasil lê pouco, pelo menos no que diz respeito a leituras de qualidade – isso também não é surpresa. Escrever até que se escreve muito. Como já dito pela imprensa e fora dela, nunca se escreveu tanto como hoje em dia. No entanto, a avalanche de escrita não é propriamente qualidade de escrita. O que se escreve hoje, e muito, é o texto picotado, palavras mastigadas e finalizadas em farelos de farelos.
          No computador, nas mensagens instantâneas de celular e mesmo em alguns recados rápidos deixados em casa o que se usa são os mínimos caracteres das palavras. Você é vc, também é tb, abraços é abs e assim por diante. Lógico que tal linguagem quase estrangeira não é descartável totalmente. Ela tem o seu reduto de uso e situação. Ocorre, contudo, que a prática quase exclusiva com essa linguagem marginaliza boa parte da norma-padrão, aquela legislada pela gramática. O usuário da língua pouco contato tem com a linguagem mais elaborada e oficial.
          Hoje, para os mais moderninhos, a linguagem que respeita ortografia, acentuação, regência e concordância é vilã. Deve ser condenada às celas solitárias e, de preferência, jogar as chaves fora para que lá ela fique no ostracismo. Erradamente, muita gente se esquece de que a norma-padrão, assim como linguagens informais, é uma variante linguística e tem seu espaço inalienável. Trocando em miúdos: ela é exigida em certos contextos orais e escritos e não aceita substituição. Não é pedantismo, mas sim adequação.
          O Enem privilegia a norma-padrão. Está no edital. E faz bem quanto a essa exigência. Logo, basta dominar a norma-padrão para ser top na redação? Não. É preciso bagagem cultural e estrutura textual eficiente  para se montar um ponto crítico e persuasivo.
          Voltemos à linguagem diferente do vc, tb e abs.
          Para se ter contato com linguagens mais apuradas e trabalhadas fora de seu senso comum e, futuramente, dominá-las, a saída prazerosa é a literatura, principalmente. E é esse o ponto levantado pelos 250 da nota 1000. Alta literatura nos apresenta linguagem em nível elevado que, à primeira vista até assusta, pois nos derruba no chão, rala nossos joelhos e nos presenteia com alguns hematomas, contudo depois ficamos escaldados e só extraímos o néctar dela. É com Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector, por exemplo, que ampliamos nosso vocabulário e aprendemos a escrever melhor. Óbvio que outras leituras também auxiliam no processo. Há revistas e mais autores muito bons também. Restringir-se no dia a dia a 140 caracteres e a uma linguagem grunhida apequena nosso intelecto e, em situações como a redação estilo Enem, travamos literalmente.
          Sei também que há questões a mais nesse problema de tantos zeros. Governo e sociedade são culpados, e muito, inclusive. Esta não valoriza e aquele não dá o suporte necessário. Temos bibliotecas sucateadas, professores mal formados e pessimamente remunerados, uma geração imediatista e hedonista que sofre horrores para focar-se numa atividade por um período amplo (leitura requer isso: foco e intensa dedicação).
          Esse é o diagnóstico da doença. Resta saber se o remédio vai ser oferecido e, principalmente, utilizado. Muitos preferem não ser curados e outros não querem ajudar com a cura. É preciso evitar a epidemia enquanto ainda há tempo.

                                                                                                 Vitor Miranda 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Karnal: reflexões capitais

          Há certos livros cujos títulos, à primeira vista, enganam. Limitam o assunto a ser lido. Algumas páginas na sequência da leitura expõem a verdade. O que era pra ser meramente política, se estende às artes. O que era para ser simplesmente um crime, se mostra um tratado filosófico. Enfim, há um leque de ruas no que parecia, pela capa, apenas ser uma pequena travessa sem saída para grandes avenidas apoteóticas.
          Esse leque de múltiplas vias está no mais recente livro do historiador e professor Leandro Karnal: Pecar e Perdoar – Deus e o homem na História (Ed. Nova Fronteira, 2014). Pelo título, é provável que o leitor em geral se equivoque quanto à obra. Classificará precipitadamente como livro religioso ou algo do gênero. E não é. Religião é apenas um dos vários assuntos abordados por Karnal. O livro, na verdade, é um aprofundado levantamento crítico do autor a respeito do comportamento humano ao longo do tempo, em especial do homem medieval ao contemporâneo passando, principalmente, pelos chamados pecados capitais instituídos pela Igreja Católica.
          Leandro Karnal, assim como em suas palestras, faz uso no livro de uma linguagem bem sedutora. A ironia, em outros momentos o sarcasmo, de sua linguagem é marca forte de seu estilo vibrante. Nas 208 páginas, o leitor é provocado a refletir – concordando ou não com o autor – e certamente sai modificado do antes e após a leitura. As provocações reflexivas de Karnal soam como uma tempestade que pega de surpresa o leitor. Dessa tempestade ninguém sai sem se molhar da cabeça aos pés.
          Uma das tônicas da obra, como já mencionado anteriormente, são os chamados pecados capitais. Leandro analisa, desde o surgimento aos dias de hoje, como esses pecados sofreram mudanças ao longo dos anos. Apresenta, por exemplo, que a avareza atualmente é vista por muitos como uma virtude, pois o avarento é um poupador que planeja o futuro. Ora, o que era negativo agora ficou positivo? "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Sábio Camões!
          E por falar no bardo Camões, outra questão visível em Pecar e Perdoar é a invejável erudição de seu autor. Karnal faz, de ponta a ponta, as mais diversas intertextualidades no livro. O leitor encontra citações sobre literatura, pintura, música, filosofia adentrando nas páginas. E o elogiável disso é que o historiador não é pedante. Na verdade, as citações vêm para exemplificar, complementar o raciocínio de forma rica e produtiva.
          Dos livros que li em 2014, Pecar e Perdoar merece estar nos melhores lugares do pódio de minha estante. Trata-se de uma leitura hipnotizadora e de grande benefício intelectual. Não é ficção. São fatos que flertam com ficções artísticas dando um painel do que somos.
          Karnal demonstra que pecar e perdoar não estão limitados à esfera religiosa como grande parte das pessoas julga. Pecar e perdoar estão, também, na moral de uma sociedade que julga para não ser julgada e que raramente perdoa. É uma sociedade que se orgulha de sempre pensar que faz o certo enquanto o outro sempre faz o errado. O livro é um tapa muito dolorido, em termos, nas nossas duas faces. Há juizes e réus entre nós. Eu sempre sou o juiz virtuoso, afinal, é o outro que é constantemente o imoral, o pecador.

Vitor Miranda

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Os pecados do Êxodo

          Definitivamente não gostei de Êxodo, deuses e reis, do aclamado diretor Ridley Scott. Houve uma grande agitação mundo a fora sobre o filme e, pra variar, entrou em polêmica com proibição de exibição em países como Egito, afinal, filmes com referências bíblicas, como esse, sempre terão uma polêmica aqui e acolá.
          Para mim, o filme engana nas duas possíveis prévias que a maioria do público faz especificamente a respeito dele. Primeiramente, não é uma transposição quase fiel da narrativa bíblica. Moisés (Christian Bale) nem chega a usar a sua "poderosa" arma bíblica, o cajado. Prefere ser mais férreo e manejar uma espada, inclusive, pasmem, para abrir o Mar Vermelho. Óbvio que transpor o livro para o cinema sempre surgem obrigatoriamente mudanças. Suportes distintos, exibições distintas.
          Outro engano do filme é o "baseado na Bíblia", ou seja, filme adaptado com licença poética. Aliás, virou desculpa comum para filmes oriundos de livros explicar os deslizes do texto original ao dizer que estão lançando mão de licença poética. E por que o filme também peca na "licença poética"? Simplesmente porque Ridley Scott não chega nem perto do equilíbrio "texto original / adaptação". Não há sensatez, ou sensibilidade, em usar esta e aquele.
          Scott tem predominantemente preocupação em construir o herói Moisés, e faz mal isso. Quando essa tarefa é deixada de lado, o que se vê é um excesso de tropeços narrativos. O pagamento da dívida que o diretor demonstra ter com o texto original fica pedante. Quem conhece o texto do Êxodo fica constrangido com a tentativa infantil do diretor ao buscar encaixar os eventos bíblicos. Por exemplo, apresentar por apresentar o irmão de Moisés, Aarão. É este com oratória elevada que guia os dizeres de Moisés – tímido e nada eloquente – diante os hebreus no texto oficial. Aarão apenas é forçado pelo diretor a aparecer. Como se quisesse dizer: Ei, brother, estou aqui! Fui!
          Mas tudo bem. Scott não se prender exclusivamente ao texto original é aceitável, pois ele faz cinema. Filme e livro são como barulho e silêncio, não se encontram nunca em harmonia. No entanto, talvez a parte mais precária do filme seja o quão ruim ficou a construção do herói. Ele parece estar pronto e incompleto. Moisés chega a ser bipolar. No episódio em que ele debate com a personificação de Deus, apresentada no filme como um capeta em forma de guri, Moisés contesta a morte futura dos primogênitos e, na sequência, diante o irmão de criação Ramsés (Joel Edgerton) é bem arrogante dizendo algo do tipo: "Apenas crianças egípcias morreram ontem, as dos hebreus, não". Resumindo: meu Deus ama as nossas crianças, e não as suas. O sensível Moisés, como a água para o vinho, instantaneamente metamorfoseou-se. A cena evidencia como não se aprofundou uma construção psicológica do personagem. Tudo é meteórico em Moisés. O amor à primeira vista do herói hebreu é bom nem comentar aqui. É ingenuidade elevada a centenas de raízes cúbicas.
          Sem ser muito analítico, meramente observando questões históricas, pode-se notar outro erro, e para esse não há licença poética à disposição. A construção das pirâmides e outras arquiteturas do Egito exibidas na produção. O filme procura explicitar a escravidão hebreia como fator unívoco da construção monumental egípcia. Bem, ao ler um livro, e são muitos, com credibilidade sobre essa questão de milênios, constata-se que o antigo Egito teve diversificados trabalhadores, inclusive remunerados. Escravos, segundo historiadores, também ajudaram a assar o bolo, talvez até hebreus como relatam Bíblia e filme, todavia, inferir ou subentender que apenas um povo, coagido e torturado, foi o autor das maravilhas dos faraós, já é eclipsar a História.
          Êxodo fracassa em narrar uma história bíblica e também em entregar pronto um enlatado maniqueísta. Se serve de consolo para quem gosta de recursos tecnológicos, o filme usa a muleta dos efeitos 3D. Há quem veja filmes hoje em dia por esse motivo, apenas. E isso é pobre e vazio. Nem ao menos diverte.
          Um filme pode cometer muitos pecados cinematográficos. Scott pratica vários deles e condena seu Êxodo ao inferno qualitativo. Parece não haver salvação ao criador, mas arrependimento de quem assiste por desperdiçar mais de duas horas com a telona.

Vitor Miranda

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A riqueza da leitura

Determinados livros, os bons literariamente falando, nunca se encerram em si. São perceptíveis as transformações no leitor, sejam elas a curto ou a longo prazo. Daí que a importância em selecionar bons livros deve ser amplamente considerada. Para tal função, há críticos e leitores em quem confiamos e, uma vez ou outra, pedimos indicações a eles.
            Bons livros nos levam a bons livros e nos transformam. Um exemplo da ida do livro a outro livro, entre vários, está em Memórias póstumas de Brás Cubas. A genialidade de Machado de Assis, aliada à sua cultura múltipla, remete seu romance a outras importantes obras. Quando se está diante uma grande obra, há seduções nela que podem despertar o desejo literário no leitor. Em se tratando de Machado, autor de obras tão orgânicas em nossa literatura, lê-lo em profundidade fatalmente encaminhará o leitor ao Dr. Shakespeare, uma vez que as referências ao bardo inglês são exploradas com certa frequência e contextualizadas nos textos machadianos.
            Tais referências, chamadas de intertextualidade, também testam os conhecimentos prévios do leitor. Em Brás Cubas, por exemplo, tem-se, em outras palavras, o famoso aforismo da dúvida hamletiana. A saber:

            Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, — um antigo lampião de azeite, — triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna, ou lutar com ela e subjugá-la. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão.
(Memórias póstumas de Brás Cubas)
           
            Além disso, como esnobar em Brás Cubas uma personagem tão emblemática como Quincas Borba? Não dá. E Machado dá a essa personagem um romance homônimo de qualidade ímpar. Sendo assim, um grande livro também pode nos aprofundar no seu próprio autor. Nada se perde e tudo se ganha.
            Machado de Assis é apenas um exemplo entre dezenas de centenas. De um lusitano para outro lusitano também há essa relação. Fernando Pessoa nos poemas de Mensagem, única obra publicada em vida pelo poeta português, claramente dialoga com Camões, com seu Os Lusíadas.
            Os primeiros poemas de Mensagem referem-se às grandes navegações portuguesas e ao contexto patriótico lusitano, chave básica de Os Lusíadas. Considerando a complexidade da leitura renascentista dessa obra-prima de Camões, Mensagem pode ser visto como um preparo ao leitor futuro de Os Lusíadas, mesmo sendo um livro posterior a este. Óbvio que isso não é uma regra, uma consequência lógica, no entanto, há o bom risco da situação ocorrer. É interessante descartar essa possibilidade? Acredito que não.
            Nas passagens finais de Dom Quixote o protagonista diz que "livros são perigosos". Nosso louco amigo tem razão. Há, de fato, um perigo neles. Exemplos ao longo da nossa História são muitos. Na Alemanha do século XVIII quando o romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe foi publicado, em pouco tempo o livro foi proibido. Causa: muitos leitores da obra se suicidaram. Clara empatia com o texto. Eis um exemplo dos perigos alertados por Quixote. A vida imita a arte.
            E o que dizer de um livro como a Bíblia? Religioso ou não, o indivíduo ocidental é sistematicamente influenciado por ela de diversas formas. O uso de roupa liga-se ao pecado original, nosso calendário é cristão, o pensamento moralista, ganhar o pão com o próprio suor, expressões populares como "pomo de adão", enfim, temos comportamentos e cultura que, muitas vezes, nem percebemos que vêm de um livro, ou melhor, de livros, pois a Bíblia são vários livros reunidos em um.
            Tendo crença ou não, ler a Bíblia fortalece muito o nosso conhecimento para compreender melhor nosso dia a dia ocidental. É de fundamental importância até para conhecer outras obras em suas totalidades. Sem conhecer a Bíblia não se entende, por exemplo, boa parte das produções artísticas expostas em museus do mundo todo.
            Outro clássico de forte importância para a cultura de um povo é a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Essa obra máxima da literatura italiana teve marca histórica no idioma nativo. De certa forma é a mãe da difusão do italiano pelo território da bota. Na época de sua criação, o idioma oficial da Itália era o latim. Dante escreve sua obra principal usando o italiano vulgar e, consequentemente, é essa língua que vem a ser o italiano moderno. Com a Divina Comédia a vida, novamente, segue a arte.
            Quando se tem em mãos um livro de alta qualidade, e eles são muitos, nossa condição de seres pensantes e construtivos se eleva consideravelmente. A literatura possui um alto poder de mudança intelectual e nos alimenta com o prazer ou mesmo nos incomoda com certos assuntos que preferimos ignorar, mas que estão ao nosso lado desde tempos remotos. Ler é primordial para uma vida mais rica e consciente.

Vitor Miranda