Cultuar o corpo e
exaltar a juventude não são novidades na História da humanidade. Desde tempos
remotos como, por exemplo, na Grécia Antiga, a prática era comum e cultural. É
perceptível isso na produção artística grega e mesmo nos seus mitos. Os deuses
gregos sempre eram representados em corpos juvenis, dotados de beleza física e
vigor. Anos e anos se foram, e dando um pulo na contemporaneidade, vemos que o
culto à beleza e à juventude permanecem vivos e se multiplicando.
Ainda que a crise
econômica atinja consideravelmente setores comerciais, os cosméticos continuam
em alta por essas bandas. O Brasil lidera mundialmente o número de cirurgias
plásticas efetuadas. Colocamos nos comerciais de diferentes produtos o rosto e
corpo padronizados da beleza. Academias nascem a cada quarteirão. Amamos ser
bonitos. Acima de tudo, ser jovens.
Esse mesmo amor fora
eternizado num clássico apaixonante da literatura mundial. Trata-se de O Retrato de Dorian Gray, do polêmico
irlandês Oscar Wilde.
No romance de Wilde,
Dorian Gray é um dândi inglês apaixonado pela beleza e juventude que tem em si.
Contrata um pintor, Basil, para fazer um retrato. Ao pintar o retrato de Dorian
Gray, este não esconde a admiração que passa a nutrir pela recente obra de
Basil. Para Gray é inaceitável que ele envelheça enquanto o quadro será jovem,
sempre jovem. Rugas, barbas e cabelos brancos não farão futuramente parte
daquela imagem criada na tela. Por que não o quadro envelhecer e eu ficar jovem
e belo para sempre? – pensa Dorian.
O protagonista afirma
que faria tudo, tudo mesmo para ser jovem eternamente. Inclusive venderia a
própria alma se preciso fosse para tal aquisição. Nasce a metáfora, nasce uma
profunda reflexão no leitor. Somos contemporaneamente Dorian Gray? Fazemos de
tudo para atingirmos o padrão do belo?
Mais do que gregos e
renascentistas amamos o belo e a juventude. Postergar a velhice nos domina. Ou
mesmo ignorar que enrugaremos e teremos, futuramente, fila preferencial e
desconto na farmácia. Ser idoso não consta nos nossos pensamentos e planos. Ser
chamado de senhor ou senhora soam como punhaladas nos ouvidos. Pedimos um eufemístico
“você” no tratamento, pois a liinguagem também envelhece as pessoas. Ou
fazem-nas se lembrar de que estão velhas.
Ler O Retrato de Dorian Gray faz o leitor
perceber que vendemos nossa essência facilmente por padrões impostos. Faz
perceber que a preços modestos leiloamos o que somos e compramos a preços
estratosféricos o que outros querem que sejamos. Alimentamos a vaidade com
presunção de uma beleza e juventude eternas. Do mesmo modo de Dorian Gray, não
analisamos as consequências possíveis (algumas punitivas) a que nos sujeitamos.
O desejo absurdo e
doentio de Dorian custou caro. Com o passar do tempo ele não suportou a
eternidade a que estava fadado e sucumbiu, pois ganhara no físico e perdera
importantes valores de sua vida. Assim fazemos muitas vezes. Ganhamos e
sucumbimos.
As redes sociais se
esbanjam de falsa felicidade, corpos com teimosia de eternos. Ninguém posta
fotos celebrando a própria velhice, a bengala e o assento preferencial em
ônibus. É tudo um festival de vaidade em que ganhar “curtir” é o doce champanhe
da vitória. Entretanto, esquecemos que champanhe tem álcool e desenvolve
tumores no fígado (malignos, viu?). Se Dorian Gray tivesse Instagran,
fatalmente doaria 24h do seu dia a selfies
e alimentaria infantilmente seu perfil imagético. Viveria a ilusão do retrato
que o dominou. Seria mais fácil compreendê-lo e ser seu cúmplice, seu retrato.
Dorian Gray é um
exercício provocativo à reflexão sobre o que somos e o que podemos nos tornar.
Oscar Wilde certamente entendia sobre a beleza e transcendeu o significado dela
ao escrever um livro tão contundente e atemporal. Gray nos berra a cada letra
do romance sua insuportável beleza. Insuportável porque ela teve um preço alto
e imperdoável.
Dorian pagou a
perpetuação da beleza com a alma. Hoje se paga com a perda da identidade essa
tentativa de eternizar-se belo.
Ser bonito sem se
punir é bom, produz porções de felicidade certamente. Mas pagar o preço que não
se deve torna o belo feio, horrível, deprimente. Dorian Gray ensina,
dolorosamente ensina muito sobre a beleza.
Vitor Miranda














