Quando
se fala em literatura em língua portuguesa, sem dúvida nos direcionamos para
dois territórios dessa produção: Brasil e Portugal. Mas não são apenas esses
dois países que produzem literatura no idioma materno de Camões e de Fernando
Pessoa. É comum poucos se lembrarem que lá na África, por exemplo, também se
fala e se produz alta literatura em português. E por aquelas terras, considerando a
língua portuguesa, um dos destaques é o moçambicano Mia Couto. Autor de grande
talento e de uma boa bagagem de livros publicados há tempos.
Um dos
romances de destaque de Mia Couto é Terra
Sonâmbula. O livro foi lançado em 1992. Nele se narram elementos do
folclore local moçambicano intercalados com outras narrativas. Resumidamente, Terra Sonâmbula apresenta dois
personagens centrais no início, o velho Tuahir e o jovem Muidinga. Ambos estão
vagando por um cenário de guerra civil, em que vários horrores bélicos podem
ser constatados explicitamente pelo leitor. Corpos mutilados e mortos, destruição
de vilas, de ônibus, ausência de perspectiva de um bom futuro, tristeza...
enfim, uma enciclopédia detalhada de como a humanidade consegue, com poucos
esforços, ser frequentemente desumana.
Já no
começo do livro, Muidinga encontra uma mala com alguns cadernos perto de um
cadáver. São de um sujeito chamado Kindzu. Nos cadernos, há episódios pessoais,
folclóricos de Kindzu. Tais histórias passam a fazer companhia principalmente a
Muidinga, que as lê, e a Tuahir, que ouve a leitura do companheiro. São relatos
poéticos repletos de uma cultura exótica, espiritual e de muitas peripécias.
Tanto ingrediente sedutor assim faz, momentaneamente, Muidinga esquecer o
inferno bélico ao seu redor e penetrar nos cadernos, ainda que as histórias de
Kindzu também estejam recheadas de violência e outras tristezas.
Das
grandes virtudes de Mia Couto, certamente destaca-se seu primor linguístico. A
linguagem é rica e sensivelmente sonora. Ela capta a atenção do leitor e faz
cada palavra sonorizar aos ouvidos, ora como melodia suave, ora como um
estrondo para as aberrações produzidas pelo ser humano. Tudo é muito bem
organizado e atinge seu propósito comunicativo. Mia Couto, lembrando nosso
Guimarães Rosa, não consegue escrever sem poetizar as palavras e nem deixar de
lado o linguajar típico da região retratada. Para muitas palavras, o autor recria
seus significados e as estrutura sem as amarras sintáticas tradicionais. A
palavra de Mia Couto nessa sua Terra
Sonâmbula não apenas diz, mas também se mostra com vida e plena de
liberdade.
Muidinga,
ao apresentar as histórias dos cadernos, desliga o plano de sua realidade e
insere o leitor nos eventos de Kindzu. O livro se divide, portanto, em dois
planos: o do presente e o das histórias de Kindzu.
O
universo daquilo que se encontra nos cadernos é mágico, fantástico. Quem já leu
Gabriel Garcia Márquez sem dúvida identificará lapsos dele em Mia Couto.
Ler Terra Sonâmbula é uma experiência
impactante. A vontade que se tem após finalizar a leitura é de correr atrás de
outro livro de seu autor. Motivo? Continuar a descobrir muito sobre um universo
pouco divulgado na literatura em português: uma África rica em letras, como também
são as de Portugal e Brasil. Mia Couto confirma essa riqueza africana em cada
página de sua Terra Sonâmbula. Quem
ainda não leu, é bom começar a ler ontem.
Vitor Miranda
