Depois
de esperar com certa ansiedade devido às dezenas de bons comentários a respeito
dele, assisti a Birdman, um dos
favoritos ao Oscar 2015. Não achei uma obra-prima, mas é um bom filme. Sua
qualidade de destaque, na minha visão, é ele ser direto no que diz na maior
parte de suas duas horas. Há críticas visíveis e metáforas quase denotativas.
O filme
é uma metalinguagem bem lúcida do mundo artístico, aqui ilustrada pelo teatro e
o cinema. Em ambos seu protagonista Riggan Thomson, numa clamorosa
interpretação de Michael Keaton, escancara o que ele foi e é. No cinema do
passado ficou seu mais ilustre trabalho, o Birdman, que dá nome ao filme. O
presente mostra um ator e diretor de teatro entre a cruz e a espada. Melhor é
fazer arte ou sucesso apenas? Os dois são possíveis concomitantemente?
A
simbólica esquizofrenia de Riggan ouvindo às vezes e outras vendo seu
homem-pássaro é uma evidente metáfora da prisão que se tem ao garantido de
estar nos holofotes. Garantir o sucesso com um super-herói, ainda que haja
qualidade inoperante nele, é uma quase entrega do protagonista. O mundo das
celebridades seduz o ego, rega a vaidade com águas dopantes e amplia a sede do
quero mais e mais.
Somam-se
a isso aspectos secundários, como conflitos familiares, reabilitação da filha
drogada, ator que enxerga a própria vida quando ela é ficção (nesse papel está
Mike, bem representado por Edward Norton) e o que acho o grande destaque dos
secundarismos do filme, os bastidores do palco. Por trás das cortinas está o
que fica escuso à plateia. A atriz que clama por reconhecimento, a fraqueza
emotiva, problemas logísticos e financeiros para se levar ao palco uma
encenação, falar não ao ator não-talentoso, saber separar o real do fictício,
medo do fracasso entre outros.
Birdman voa alto no que se propõe. É um
filme que não desperdiça nossas duas horas diante sua narrativa. As críticas
não são pedantes. São sinceras e transparentes na boa maioria das cenas. Não é
realmente obra-prima da sétima arte, mas certamente está entre os melhores
filmes produzidos ultimamente da famigerada indústria cinematográfica.
Vitor Miranda