Em 1981 o consagrado compositor e
cantor Chico Buarque lançou pela gravadora Philips o disco Almanaque. Entre as canções gravadas nesse álbum está O Meu Guri. A letra retrata o cotidiano
de um garoto que vive com sua mãe em um morro. Para sobreviver, o menino
pratica pequenos furtos os quais a mãe, devido sua ingenuidade, não consegue tomar
conhecimento.
Infelizmente, mesmo mais de três
décadas após seu lançamento, o guri de Chico marca presença cativa na realidade
brasileira. É comum em noticiários ou nas nossas cidades nos depararmos com o
enredo dessa música. A canção de Chico Buarque parece uma profecia, sem direito
a nenhuma comemoração, em pleno século 21. Não à toa que hoje se discute muito
sobre a nada inteligente diminuição da maioridade penal. É provável que em
breve não tenhamos mais guris de 16 anos, pois estes já serão adultos perante a
lei.
Na letra de Chico é bom ressaltar o
papel do eu lírico, no caso, a mãe do guri. Chico dá voz a uma mulher ingênua e
carinhosa com o filho, ainda que a vida a deixe frente a frente com vários dramas,
como o da fome (Já foi nascendo com cara
de fome) e o desafio de se criar uma criança sem a figura paterna, uma vez
que em nenhum momento da letra o pai surge ou é citado. A conclusão da história
desse menino é trágica. Ele não se torna um adulto. Torna-se mais uma
estatística de grave problema social, em que matar o pequeno criminoso é a
regra míope de justiceiros, quando educá-lo deveria ser o primordial. Mas
educação leva tempo. Silenciar nossos guris no mato com o papo pro ar é mais
rápido e prazeroso.
A música escancara ainda a questão
da formação da identidade do indivíduo na sociedade capitalista. O compositor
evidencia que a mãe do guri só consegue se identificar como gente a partir do
momento que o filho rouba e dá a ela uma série de objetos. Assim, a mulher antes
marginalizada passa a ter, ou seja, está inserida no esquema padrão da
sociedade que dita as regras a serem obedecidas.
Ao ouvir atentamente esse guri de
1981 e olhar ao nosso redor, fica difícil separar o que é ficção e realidade.
Levando em consideração o tema e a narrativa presentes nessa grande música de
Chico Buarque, percebe-se que a ficção, inegavelmente, é a nossa realidade. Por
um bom tempo, enquanto se debate a inoperante maioridade penal aos 16 anos,
ainda encontraremos vários guris, infelizmente, no mato de papo pro ar.
Vitor
Miranda
