terça-feira, 11 de outubro de 2016

Renato Russo


Era 11 de outubro de 1996. Morria, na data, Renato Russo. O líder da Legião Urbana partia deixando um legado musical que, hoje, duas décadas após sua morte, se mantém intacto e, em termos, atual para nossa infelicidade. Afinal, é vergonhoso e difícil aceitar que nas favelas e no senado muitos continuam desrespeitando a Constituição. Os fatos políticos e sociais comprovam.
            Renato certamente foi o maior compositor do rock brasileiro. Política, lirismo, espiritualidade, filosofia, tudo isso entrou ricamente na obra desse carioca brasiliense e russo. E justamente essa diversidade temática mantendo sempre o lado crítico e inteligente me seduz no trabalho do Renato. Mente brilhante, culta.
            Muitas músicas da Legião me marcaram e marcam como tatuagem. Gosto praticamente de tudo produzido na música pela banda. Destaco, contudo, três paixões pessoais do acervo legionário.
           
1 – Quase sem querer (quase balada, filosófica, eu lírico humano por errar e aprender)
            2 – Angra dos Reis (lírica no começo e metafórica na parte final com política)
            3 – A Montanha Mágica (a busca por um novo começo de vida)
           
Passei a adolescência ouvindo a Legião Urbana e isso me tornou alguém melhor. Renato Russo continua sendo meu ídolo maior na música, pois além de me presentear com suas letras, foi ponte para eu conhecer muita literatura de qualidade e outros artistas da música.
            Morre o homem e fica a obra.
Vitor Miranda

sábado, 8 de outubro de 2016

Auschwitz soviética

Ao falarmos em campos de concentração, o senso comum nos impera a lembrar Auschwitz, na Alemanha nazista. O lugar é tão famoso, negativamente, que até faz parecer que não houve outros com as mesmas atrocidades. Na União Soviética, de Stálin, houve os gulags, campos de concentração para trabalhos forçados àqueles punidos pelo governo comunista soviético. Geralmente os crimes eram políticos. Muitos dos gulags localizavam-se na Sibéria, onde as temperaturas abaixo de zero são rigorosíssimas, a ponto de fazer um cuspe congelar no ar. Os trabalhos, como parte da punição aos rebeldes, variavam consideravelmente. Cortar lenha em condições absurdas, quebrar e carregar pedras com o frio chicoteando a carne eram algumas das árduas tarefas a serem consumadas. Como ração diária, muitas vezes os detentos ganhavam sopas ralas, exíguas intensificando a dura rotina.
            Dentro desse contexto subumano vêm à tona os Contos de Kolimá I, de Varlam Chalámov (1907-1982). O autor, nesse livro denso, descreve sua experiência de quase duas décadas como preso político nos gulags. Varlam fora preso por Stálin, pois o escritor cometera o “crime” de ser trotskista na URSS. Chalámov faz dos fatos a raiz para os contos tão bem tecidos no livro. Tem-se dessa maneira o chamado hibridismo, em que o verídico torna-se ficção, uma vez que temos uma obra literária. É difícil, mesmo para o leitor experiente, às vezes separar o que foi real e o que é ficção.
O livro é uma edição primorosa da Editora 34, com tradução feita diretamente do russo por Denise Sales e Elena Vasilevich. A edição traz muitas notas de rodapé para enriquecer a leitura e deixar o leitor inteiramente a par de tudo que Varlam constrói nas curtas narrativas da obra.
            As experiências absurdas vivenciadas em Kolimá, região extrema no norte da Sibéria, são apresentadas de maneiras diversificadas nessa literatura de testemunho. Há o prisioneiro que cava sem saber que em breve ali será sua sepultura. Em outro episódio o autor/narrador e um amigo de cela retiram pedras que cobrem o cadáver de um russo e pegam dele suas roupas. Estas viram moedas de troca na prisão para a aquisição de diferentes produtos.
No relato das correspondências recebidas pelos detentos, Chalámov descreve o desprazer de receber um bom presente como, por exemplo, um casaco. Aquilo vira objeto de desejo de muita gente por lá. De repente uma pessoa vem e rouba o casaco golpeando-lhe a cabeça e levando a vítima ao dolorido desmaio.
            As 33 curtas narrativas do livro são agudas. No decorrer da leitura, naquele exato momento quando o leitor recebe as histórias, ele se torna um personagem secundário do enredo e sente um pouco, por cumplicidade, a inerente capacidade humana de se desumanizar e exteriorizar toda a sua crueldade sórdida. Isso se dá pelas doses intensas e ácidas de realismo nas palavras de Varlam Chalámov. Impossível sair, de alguma forma, ileso depois de conhecer mais um pouco das profundezas da maldade humana.
            Para exemplificar um pouco o impacto do testemunho de Varlam, eis uma passagem do livro que retumba insistentemente em mim após lê-la ao som simbolista de Claude Debussy. Na camada muscular insignificante que ainda restava sobre nossos ossos, que ainda nos dava a possibilidade de comer, de nos mover, respirar, cortar lenha, pegar a pá e jogar pedras e areia no carrinho de mão e inclusive de empurrar o carrinho pela interminável trilha de madeira até o equipamento de lavagem, nessa camada muscular acomodava-se apenas raiva, o sentimento humano mais duradouro.
            São passagens do livro, com esse teor tão brutal, que tornam essa leitura obrigatória àqueles que assumem sua coragem de conhecer não uma parte específica recente da História Mundial, mas conhecer um pouco mais a natureza humana, que é múltipla por ser oportuna e traiçoeira. Selvagem por ser humana. Uma natureza selvagem que é mais Hobbes do que Rousseau. Uma natureza que foge do Fla-Flu político e não se limita a latir contra a política à esquerda ou à direita, mas que late para si, demonstra para si que o homem é o que é, independentemente dos tradicionais rótulos.
            Contos de Kolimá I é um de seis livros que Chamálov escreveu a respeito de sua punitiva estadia nos campos de concentração soviéticos. A Editora 34 merece intermináveis parabéns por trazer uma obra desse calibre ao público brasileiro que, pela mesma editora, já tem o enorme prazer de ter traduções diretamente do russo de obras de escritores tão importantes como Fiódor Dostoiévski. Aplausos, muitos aplausos à editora.

Vitor Miranda

domingo, 8 de novembro de 2015

Dorian Gray e a feiura da beleza

Cultuar o corpo e exaltar a juventude não são novidades na História da humanidade. Desde tempos remotos como, por exemplo, na Grécia Antiga, a prática era comum e cultural. É perceptível isso na produção artística grega e mesmo nos seus mitos. Os deuses gregos sempre eram representados em corpos juvenis, dotados de beleza física e vigor. Anos e anos se foram, e dando um pulo na contemporaneidade, vemos que o culto à beleza e à juventude permanecem vivos e se multiplicando.
Ainda que a crise econômica atinja consideravelmente setores comerciais, os cosméticos continuam em alta por essas bandas. O Brasil lidera mundialmente o número de cirurgias plásticas efetuadas. Colocamos nos comerciais de diferentes produtos o rosto e corpo padronizados da beleza. Academias nascem a cada quarteirão. Amamos ser bonitos. Acima de tudo, ser jovens.
Esse mesmo amor fora eternizado num clássico apaixonante da literatura mundial. Trata-se de O Retrato de Dorian Gray, do polêmico irlandês Oscar Wilde.
No romance de Wilde, Dorian Gray é um dândi inglês apaixonado pela beleza e juventude que tem em si. Contrata um pintor, Basil, para fazer um retrato. Ao pintar o retrato de Dorian Gray, este não esconde a admiração que passa a nutrir pela recente obra de Basil. Para Gray é inaceitável que ele envelheça enquanto o quadro será jovem, sempre jovem. Rugas, barbas e cabelos brancos não farão futuramente parte daquela imagem criada na tela. Por que não o quadro envelhecer e eu ficar jovem e belo para sempre?  – pensa Dorian.
O protagonista afirma que faria tudo, tudo mesmo para ser jovem eternamente. Inclusive venderia a própria alma se preciso fosse para tal aquisição. Nasce a metáfora, nasce uma profunda reflexão no leitor. Somos contemporaneamente Dorian Gray? Fazemos de tudo para atingirmos o padrão do belo?
Mais do que gregos e renascentistas amamos o belo e a juventude. Postergar a velhice nos domina. Ou mesmo ignorar que enrugaremos e teremos, futuramente, fila preferencial e desconto na farmácia. Ser idoso não consta nos nossos pensamentos e planos. Ser chamado de senhor ou senhora soam como punhaladas nos ouvidos. Pedimos um eufemístico “você” no tratamento, pois a liinguagem também envelhece as pessoas. Ou fazem-nas se lembrar de que estão velhas.
Ler O Retrato de Dorian Gray faz o leitor perceber que vendemos nossa essência facilmente por padrões impostos. Faz perceber que a preços modestos leiloamos o que somos e compramos a preços estratosféricos o que outros querem que sejamos. Alimentamos a vaidade com presunção de uma beleza e juventude eternas. Do mesmo modo de Dorian Gray, não analisamos as consequências possíveis (algumas punitivas) a que nos sujeitamos.
O desejo absurdo e doentio de Dorian custou caro. Com o passar do tempo ele não suportou a eternidade a que estava fadado e sucumbiu, pois ganhara no físico e perdera importantes valores de sua vida. Assim fazemos muitas vezes. Ganhamos e sucumbimos.
As redes sociais se esbanjam de falsa felicidade, corpos com teimosia de eternos. Ninguém posta fotos celebrando a própria velhice, a bengala e o assento preferencial em ônibus. É tudo um festival de vaidade em que ganhar “curtir” é o doce champanhe da vitória. Entretanto, esquecemos que champanhe tem álcool e desenvolve tumores no fígado (malignos, viu?). Se Dorian Gray tivesse Instagran, fatalmente doaria 24h do seu dia a selfies e alimentaria infantilmente seu perfil imagético. Viveria a ilusão do retrato que o dominou. Seria mais fácil compreendê-lo e ser seu cúmplice, seu retrato.
Dorian Gray é um exercício provocativo à reflexão sobre o que somos e o que podemos nos tornar. Oscar Wilde certamente entendia sobre a beleza e transcendeu o significado dela ao escrever um livro tão contundente e atemporal. Gray nos berra a cada letra do romance sua insuportável beleza. Insuportável porque ela teve um preço alto e imperdoável.
Dorian pagou a perpetuação da beleza com a alma. Hoje se paga com a perda da identidade essa tentativa de eternizar-se belo.
Ser bonito sem se punir é bom, produz porções de felicidade certamente. Mas pagar o preço que não se deve torna o belo feio, horrível, deprimente. Dorian Gray ensina, dolorosamente ensina muito sobre a beleza.


Vitor Miranda

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Dom Quixote, leitura que se renova

Sempre trabalho com a leitura de D. Quixote no 7° ano. A obra, por questões diversas, que leio com a garotada é uma adaptação. Quando ano após ano retorno ao livro máximo de Cervantes e da literatura espanhola, há certamente uma nova experiência à minha espera.
          Ontem iniciei com os alunos a leitura das aventuras desse louco sensato cavaleiro. Discussões iniciais sobre o romance já compensaram bastante o trabalho.
          Inicialmente, as proezas vividas por Quixote e seu fiel Sancho Pança já nos provocam uma reflexão aparentemente simples, mas reveladora de uma complexidade enorme. É fácil separar o real da fantasia? Devemos ter fantasias? Quais delas nos servem? Quais delas são moinhos de vento que nos desafiam hoje e ontem?
          Ler continua sendo, há tempos, uma forma prazerosa e muito construtiva a nossas inúmeras caminhadas. Os abruptos e suaves caminhos podem ser trilhados ao lombo do Rocinante quixotesco ou do asno paciente de Sancho. Quem escolhe é o leitor.
          Muito nos promete a leitura dessa adaptação de D. Quixote. Meu entusiasmo para reler o livro não é diferente da primeira vez que li a obra. Para mim, é uma eterna revelação o Quixote.
          Avancemos já contra os gigantes moinhos de vento tão diversos e presentes aqui fora!
Vitor Miranda

domingo, 26 de julho de 2015

Punindo Maria

Fundamentalismo religioso tornou-se um assunto frequente na mídia. Ele é um tumor maligno que não se ausenta no Oriente e nem no Ocidente. Exemplos são fartos, infelizmente. É a menina levando pedrada após sair de um culto candomblé, são bombas explodindo no universo oriental, monumentos históricos destruídos e pessoas exterminadas. Tudo tendo o arsenal pútrido daqueles que elevam ao máximo seus ideais divinos, às vezes contrariando a paz proposta por seus respectivos deuses. O mundo não se tornou mais lúcido mesmo atingindo altos patamares tecnológicos. Há ignorância e imposição vazando por vários poros. Não se segue o deus mas aquilo que meu pensamento extremo impõe. A cerca disso, ilustra brilhantemente o assunto um recente filme alemão, 14 Estações de Maria.
          O filme gira em torno de Maria, filha de pais católicos fundamentalistas. A menina tem 3 irmãos, um deles mudo. A mudez chega a ser vista pela família como vontade divina, um teste de Deus para ver se a fé deles realmente existe e está acima de tudo.
          Os pais sufocam Maria com uma tradição religiosa de hermetismo absurdo à modernidade. Vetam aos filhos, por exemplo, amizades e músicas não ligadas à religião da família. Maria absorve a situação toda e sua liberdade é atrofiada. O título é uma referência às etapas da vida de Jesus Cristo.
          Há uma série de elementos bem explorados no filme. O discurso da mãe, principalmente, é medieval e assombra Maria no dia a dia. O diretor não esconde nos 14 quadros / capítulos o diálogo cinema e teatro. A câmera em cada um dos capítulos do filme tem um único enquadramento. Não há ângulos diversos e as cenas funcionam como um palco.
          A simbologia da trindade salta aos olhos. Diversas vezes nota-se a presença de uma tríade. São 3 pessoas num espaço, 3 cadeiras, 3 bancos do carro em destaque, 3 estantes de livros. A montagem é clara e não exige muito esforço para ser percebida.
          Um  momento dramático e cômico inesquecível do filme ocorre na escola durante a aula de educação física de Maria. A professora coloca a música The Look, da dupla sueca Roxette. A intenção é tornar a aula atrativa, animada. Nesse momento, Maria toma uma atitude como clara consequência da imposição religiosa da família. Ali, naquela música, certamente o demônio está presente e é preciso combatê-lo. Maria vai à luta, não pode tolerar aquilo.
          Em tempos de carros velozes e formigas no cinema, dar atenção a produções europeias como essa vinda lá da Alemanha dá esperança de poder, ainda, colher na sétima arte profundidade artística. Entreter-se não é errado, é bom. Fazer somente isso é abrir mão das possibilidades de enriquecimento mental proporcionadas pelo cinema.
          14 Estações de Maria é um filme que acerta, e muito, por não ser dogmático. Engana-se quem pensar que se trata de punir a religião e elevar o ateísmo ou mesmo a ciência. A obra é um painel minucioso e convidativo para nos propor uma reflexão séria a respeito do fundamentalismo religioso. No final, não resistimos ao convite.
Vitor Miranda  

sábado, 18 de julho de 2015

O sermão e o Cunha

            A resignificaçao dos sermões barrocos de Padre Vieira, mais de quatro séculos depois, é espantosa. Um de seus textos mais líricos, belos e reflexivos é o sermão de Santo Antônio. Resumidamente, trata-se da pregação àqueles que podem mas se recusam a ouvir, consequentemente, o orador troca seu público para os que ouvem-no. Nesse sermão Antônio deixa de pregar aos homens e vai pregar aos peixes. Estes têm o dom de apenas ouvir e não falar. Aqueles podem ouvir e falar, entretanto não fazem questão de ouvir ensinamentos.
            Pois bem, dada a recente denúncia de corrupção contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, há manifestações interessantes no universo de comentários na internet. Há muitos que ignoram as denúncias não querendo ouvir as suspeitas de corrupção contra seu líder conservador, retrógrado. Comportam-se como os homens do sermão, quando deveriam ser os peixes e não nadar contra o bom senso. Ora, se a denúncia os faz suspeitar de um, a outra denúncia não deveria ter tratamento distinto. Isso é desonestidade intelectual e política.
            Viera continua sendo fundamental leitura e releitura por aqui.

Vitor Miranda

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Velas Poéticas

            É impressionante como o Nordeste brasileiro produz tantos músicos admiráveis. Nem citarei a penca deles, pois se faz desnecessário o ato. Entre esses tesouros musicais, brilha Raimundo Fágner com raios fúlgidos particulares. Letras? Várias. Um exemplo? "Mucuripe", em parceria com outro gênio nordestino, Belchior.
            A construção linguística se vê no início, com os versos conotativos As velas do Mucuripe / Vão sair para pescar. Aqui a linguagem figurada explorada é a metonímia, nesse caso trocando o conteúdo pelo continente. Ou seja, quem pescará são os pescadores, e não as velas. Estas simbolicamente representam aqueles.
            Recebe destaque também o lirismo plástico em Calça nova de riscado / Paletó de linho branco / Que até o mês passado / Lá no campo ainda era flor.  Novamente uma troca, não linguística, e sim pragmática.
            Esse pragmatismo, comum há tempos na sociedade humana, simplesmente consiste em pegar a matéria-prima e transformá-la em bens materiais banais, como a calça e o paletó citados na canção. Enquanto flor, essa matéria-prima está no campo sem serventia alguma aos olhos do senso comum. Ganha protagonismo apenas quando é arrancada da terra e vai para o ventre da fabricação têxtil para renascer em forma de roupa. Essa metamorfose, campo-fábrica, é triste fora dos olhos do senso comum, mas ainda assim bela, tristemente bela.
            Mucuripe, com sua letra e melodia, é prova de que a música (quando profunda) é uma arte cumpridora de um dos papéis fundamentais da produção artística: tocar a sensibilidade humana expandindo toda a sua potencialidade.

Vitor Miranda

quinta-feira, 9 de julho de 2015

As viagens em Next Year

            As diferentes manifestações textuais se enriquecem, e muito, quando dialogam competentemente com gêneros ou textos aclamados (intertextualidade). Outras vezes o diálogo intertextual, implícito ou explícito, se comunica com acontecimentos da realidade. Quando isso ocorre – obviamente –, é preciso o leitor estar a par do repertório ali explorado. Além disso, o leitor, não propriamente da linguagem verbal, precisa estar atento e, dependendo da profundidade das referências intertextuais, aguçar a sensibilidade para captar a rede de informações diante de si.
            Um exemplo bem ilustrativo de referências a fatos e obras terceiras pode ser observado no excelente vídeo-clipe Next Year, da banda norte-americana Foo Fighters.
            Lançado em 2000, o vídeo apresenta uma das músicas de trabalho do álbum There's Nothing Left to Lose. Nas cenas, aparecem os quatro integrantes da banda vestidos de astronautas rumo ao espaço. É evidente a referência à viagem do homem à lua em 1969. Desse modo, é importante ter esse fato em consideração para fazer as leituras permitidas pelo vídeo da banda.
            A licença poética se nota, entre outros porquês, pela apresentação musical dentro da espaçonave. O protocolo da Nasa dá espaço à música. Esta ganha o destaque e dele não abre mão.
            A letra de Next Year evidentemente não é sobre a conquista da lua e nem da corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos durante a Guerra Fria. Os versos são de teor figurativo, poético. Claro que em determinadas passagens como, por exemplo, I'm in the sky tonight / There I can keep by your side, o diálogo com viagem espacial se estabelece e nasce o vídeo-clipe, a intertextualidade.
            Esse tipo de intertextualidade recebe o nome de paródia, pois retoma um conhecido texto/situação aplicando-o em outro contexto. Nesse trabalho também está presente o humor, que pode ser ácido ou não. Em Next Year as imagens com certeza dispensam o humor ácido de certas paródias e põem em prática a suavidade desse recurso da linguagem.
            O humor é notável na troca do nome da Nasa pelo da banda, seja no foguete ou no uniforme. Ademais, o gesto clássico da bandeira dos EUA fincada no terreno lunar cede lugar a uma bandeira com FF, ou seja, iniciais do nome da banda. Essa mudança nominal não é meramente manifestação de um humor intencional. A troca simboliza a conquista pessoal da banda, e não mais a de uma nação ou da humanidade.
            Posteriormente, o humor sai de cena e imagens em quadros sucessivos, no final, concluem com uma crítica nada atemporal, infelizmente. Trata-se da ironia humana de vencer limites com alta tecnologia (nesse caso desbravando o espaço) e ser incapaz (ou egoísta?) de vencer problemas sociais crônicos por aqui. As cenas de guerra sugerem isso.
            Merece nota uma imagem rápida aos 2min12: um triângulo com feixes coloridos. A imagem é semelhante à capa de um clássico álbum, de 1973, da banda britânica Pink Floyd. Sugestivamente, o nome do álbum é The Dark Side of the Moon. Tanto o clipe do Foo Fighters quanto Pink Floyd fazem referência à lua (Moon).
            Foo Fighters, portanto, dialogam com o evento espacial de 1969, com um clássico álbum progressista de 1973 e apresentam isso tudo em um vídeo-clipe produzido em 2000. O múltiplo temporalismo dessa gravação áudio-visual é de grande beleza e qualidade. Conhecer as referências presentes no vídeo-clipe de Next Year amplia a compreensão da obra e leva o espectador/leitor à essência proposta por banda e direção de arte nessa gravação.

Vitor Miranda