Ao falarmos em campos de concentração,
o senso comum nos impera a lembrar Auschwitz, na Alemanha nazista. O lugar é
tão famoso, negativamente, que até faz parecer que não houve outros com as
mesmas atrocidades. Na União Soviética, de Stálin, houve os gulags, campos de
concentração para trabalhos forçados àqueles punidos pelo governo comunista
soviético. Geralmente os crimes eram políticos. Muitos dos gulags localizavam-se
na Sibéria, onde as temperaturas abaixo de zero são rigorosíssimas, a ponto de
fazer um cuspe congelar no ar. Os trabalhos, como parte da punição aos
rebeldes, variavam consideravelmente. Cortar lenha em condições absurdas,
quebrar e carregar pedras com o frio chicoteando a carne eram algumas das
árduas tarefas a serem consumadas. Como ração diária, muitas vezes os detentos
ganhavam sopas ralas, exíguas intensificando a dura rotina.
Dentro desse contexto subumano vêm à
tona os Contos de Kolimá I, de Varlam
Chalámov (1907-1982). O autor, nesse livro denso, descreve sua experiência de quase
duas décadas como preso político nos gulags. Varlam fora preso por Stálin, pois
o escritor cometera o “crime” de ser trotskista na URSS. Chalámov faz dos fatos
a raiz para os contos tão bem tecidos no livro. Tem-se dessa maneira o chamado
hibridismo, em que o verídico torna-se ficção, uma vez que temos uma obra
literária. É difícil, mesmo para o leitor experiente, às vezes separar o que
foi real e o que é ficção.
O livro é uma edição primorosa da
Editora 34, com tradução feita diretamente do russo por Denise Sales e Elena
Vasilevich. A edição traz muitas notas de rodapé para enriquecer a leitura e
deixar o leitor inteiramente a par de tudo que Varlam constrói nas curtas
narrativas da obra.
As experiências absurdas vivenciadas
em Kolimá, região extrema no norte da Sibéria, são apresentadas de maneiras
diversificadas nessa literatura de testemunho. Há o prisioneiro que cava sem
saber que em breve ali será sua sepultura. Em outro episódio o autor/narrador e
um amigo de cela retiram pedras que cobrem o cadáver de um russo e pegam dele
suas roupas. Estas viram moedas de troca na prisão para a aquisição de diferentes
produtos.
No relato das correspondências
recebidas pelos detentos, Chalámov descreve o desprazer de receber um bom
presente como, por exemplo, um casaco. Aquilo vira objeto de desejo de muita
gente por lá. De repente uma pessoa vem e rouba o casaco golpeando-lhe a cabeça
e levando a vítima ao dolorido desmaio.
As 33 curtas narrativas do livro são
agudas. No decorrer da leitura, naquele exato momento quando o leitor recebe as
histórias, ele se torna um personagem secundário do enredo e sente um pouco,
por cumplicidade, a inerente capacidade humana de se desumanizar e exteriorizar
toda a sua crueldade sórdida. Isso se dá pelas doses intensas e ácidas de
realismo nas palavras de Varlam Chalámov. Impossível sair, de alguma forma, ileso
depois de conhecer mais um pouco das profundezas da maldade humana.
Para exemplificar um pouco o impacto
do testemunho de Varlam, eis uma passagem do livro que retumba insistentemente
em mim após lê-la ao som simbolista de Claude Debussy. Na camada muscular insignificante que ainda restava sobre nossos ossos,
que ainda nos dava a possibilidade de comer, de nos mover, respirar, cortar
lenha, pegar a pá e jogar pedras e areia no carrinho de mão e inclusive de
empurrar o carrinho pela interminável trilha de madeira até o equipamento de
lavagem, nessa camada muscular acomodava-se apenas raiva, o sentimento humano
mais duradouro.
São passagens do livro, com esse
teor tão brutal, que tornam essa leitura obrigatória àqueles que assumem sua
coragem de conhecer não uma parte específica recente da História Mundial, mas conhecer
um pouco mais a natureza humana, que é múltipla por ser oportuna e traiçoeira.
Selvagem por ser humana. Uma natureza selvagem que é mais Hobbes do que
Rousseau. Uma natureza que foge do Fla-Flu político e não se limita a latir
contra a política à esquerda ou à direita, mas que late para si, demonstra para
si que o homem é o que é, independentemente dos tradicionais rótulos.
Contos
de Kolimá I é um de seis livros que Chamálov escreveu a respeito de sua punitiva
estadia nos campos de concentração soviéticos. A Editora 34 merece intermináveis
parabéns por trazer uma obra desse calibre ao público brasileiro que, pela
mesma editora, já tem o enorme prazer de ter traduções diretamente do russo de
obras de escritores tão importantes como Fiódor Dostoiévski. Aplausos, muitos
aplausos à editora.
Vitor Miranda