É
angustiante a espera do coronel, passando por dificuldades financeiras há
tempos. Além, é claro, da dor nunca cicatrizada pela perda de seu único filho.
As
quase cem páginas tão bem construídas por García Márquez podem ser, na sua
essência, resumidas em uma palavra: privação.
As
privações narradas ao longo dessa narrativa se apresentam tanto no plano físico
quanto abstrato. No plano físico há a privação do dinheiro e suas
consequências. O casal já com poucos recursos fica entre a cruz e a espada
quanto à comida. Alimentam-se as bocas humanas ou o galo? Alimentar o galo é
investir no futuro? Vai ressarcir com vitórias nas rinhas?
A saúde
é outra privação. A esposa do coronel é extremamente asmática e, lógico,
privada de uma saúde taurina. Vive boa parte do tempo na cama. Mesmo debilitada
é o pilar principal do coronel para ainda ter vontade de viver.
Liberdade
de expressão é mais uma privação. Esta, todavia, não se restringe ao casal. É a
privação que emudece e deixa quem a infringe sempre alerta por uma provável
retaliação do poder constituinte. A subversão tem um preço alto, assim como
pagara o filho do coronel com a vida.
É
evidente que a privação mais latente da novela é o filho. Há tristeza pela
falta do dinheiro, há tristeza pela saúde frágil da mulher do coronel, há
tristeza pelas bocas fechadas e há um universo de tristezas pela morte do
filho. Augustín, o filho, é a privação que sempre será privação para o casal. As
outras privações ainda podem ser resolvidas, no entanto, a do filho é perda
eterna e dor aguda, que se perpetua na imagem do galo.
Gabo,
como era chamado carinhosamente Gabriel García Márquez, não deixa para segundo
plano a preocupação com a linguagem. Choca com beleza o leitor. Dá a ele
metáforas insólitas, inesperadas. Em outros momentos apresenta termos
"sujos", como no último parágrafo do livro, de uma só palavra. Essa
quebra linguística, esse uso não-poético da linguagem é para aproximar a
literatura de nossa vida real. É mostrar que o sublime da linguagem, que é a
literatura, também está de mãos dadas com o banal.
Recebe
destaque também o aspecto visual e sonoro presentes nas letras de Gabo. Parece,
por exemplo, ser interesse grande do autor a visualização da ferrugem da lata
de café no início da história. O chão de barro batido. A palha da casa. Tudo se
encaixa num mosaico de precisão única e ótica.
O
ouvido do leitor parece unir-se ao do coronel quando este, tentando não ouvir
mas ouvindo, se angustia com uma goteira no teto. Quer ignorá-la e dormir, mas
há poderes além da capacidade humana. A impotência vence o sono e tortura o
coronel com pensamentos corrosivos.
Ninguém escreve ao coronel é triste. É
uma história de privações dolorosas. Porém seu autor com maestria atenua para o
leitor essas experiências por meio da linguagem e o carrega amigavelmente
durante a leitura. Ficamos cúmplices do coronel e sua esposa em vários momentos.
Sofremos um pouco com eles no balaio das privações. Sofrimento maior, contudo,
é privar-se de ler esse livro e deixar de aprender um pouco mais daquilo que
está ou pode estar na nossa vida particular e mesmo na social.
Vitor Miranda




