domingo, 8 de novembro de 2015

Dorian Gray e a feiura da beleza

Cultuar o corpo e exaltar a juventude não são novidades na História da humanidade. Desde tempos remotos como, por exemplo, na Grécia Antiga, a prática era comum e cultural. É perceptível isso na produção artística grega e mesmo nos seus mitos. Os deuses gregos sempre eram representados em corpos juvenis, dotados de beleza física e vigor. Anos e anos se foram, e dando um pulo na contemporaneidade, vemos que o culto à beleza e à juventude permanecem vivos e se multiplicando.
Ainda que a crise econômica atinja consideravelmente setores comerciais, os cosméticos continuam em alta por essas bandas. O Brasil lidera mundialmente o número de cirurgias plásticas efetuadas. Colocamos nos comerciais de diferentes produtos o rosto e corpo padronizados da beleza. Academias nascem a cada quarteirão. Amamos ser bonitos. Acima de tudo, ser jovens.
Esse mesmo amor fora eternizado num clássico apaixonante da literatura mundial. Trata-se de O Retrato de Dorian Gray, do polêmico irlandês Oscar Wilde.
No romance de Wilde, Dorian Gray é um dândi inglês apaixonado pela beleza e juventude que tem em si. Contrata um pintor, Basil, para fazer um retrato. Ao pintar o retrato de Dorian Gray, este não esconde a admiração que passa a nutrir pela recente obra de Basil. Para Gray é inaceitável que ele envelheça enquanto o quadro será jovem, sempre jovem. Rugas, barbas e cabelos brancos não farão futuramente parte daquela imagem criada na tela. Por que não o quadro envelhecer e eu ficar jovem e belo para sempre?  – pensa Dorian.
O protagonista afirma que faria tudo, tudo mesmo para ser jovem eternamente. Inclusive venderia a própria alma se preciso fosse para tal aquisição. Nasce a metáfora, nasce uma profunda reflexão no leitor. Somos contemporaneamente Dorian Gray? Fazemos de tudo para atingirmos o padrão do belo?
Mais do que gregos e renascentistas amamos o belo e a juventude. Postergar a velhice nos domina. Ou mesmo ignorar que enrugaremos e teremos, futuramente, fila preferencial e desconto na farmácia. Ser idoso não consta nos nossos pensamentos e planos. Ser chamado de senhor ou senhora soam como punhaladas nos ouvidos. Pedimos um eufemístico “você” no tratamento, pois a liinguagem também envelhece as pessoas. Ou fazem-nas se lembrar de que estão velhas.
Ler O Retrato de Dorian Gray faz o leitor perceber que vendemos nossa essência facilmente por padrões impostos. Faz perceber que a preços modestos leiloamos o que somos e compramos a preços estratosféricos o que outros querem que sejamos. Alimentamos a vaidade com presunção de uma beleza e juventude eternas. Do mesmo modo de Dorian Gray, não analisamos as consequências possíveis (algumas punitivas) a que nos sujeitamos.
O desejo absurdo e doentio de Dorian custou caro. Com o passar do tempo ele não suportou a eternidade a que estava fadado e sucumbiu, pois ganhara no físico e perdera importantes valores de sua vida. Assim fazemos muitas vezes. Ganhamos e sucumbimos.
As redes sociais se esbanjam de falsa felicidade, corpos com teimosia de eternos. Ninguém posta fotos celebrando a própria velhice, a bengala e o assento preferencial em ônibus. É tudo um festival de vaidade em que ganhar “curtir” é o doce champanhe da vitória. Entretanto, esquecemos que champanhe tem álcool e desenvolve tumores no fígado (malignos, viu?). Se Dorian Gray tivesse Instagran, fatalmente doaria 24h do seu dia a selfies e alimentaria infantilmente seu perfil imagético. Viveria a ilusão do retrato que o dominou. Seria mais fácil compreendê-lo e ser seu cúmplice, seu retrato.
Dorian Gray é um exercício provocativo à reflexão sobre o que somos e o que podemos nos tornar. Oscar Wilde certamente entendia sobre a beleza e transcendeu o significado dela ao escrever um livro tão contundente e atemporal. Gray nos berra a cada letra do romance sua insuportável beleza. Insuportável porque ela teve um preço alto e imperdoável.
Dorian pagou a perpetuação da beleza com a alma. Hoje se paga com a perda da identidade essa tentativa de eternizar-se belo.
Ser bonito sem se punir é bom, produz porções de felicidade certamente. Mas pagar o preço que não se deve torna o belo feio, horrível, deprimente. Dorian Gray ensina, dolorosamente ensina muito sobre a beleza.


Vitor Miranda