A
História de ontem e a contemporânea dão muitos exemplos de como o mundo humano
é repleto de injustiças a serem superadas – sejam elas políticas, sociais ou
religiosas. O cinema vez ou outra, com qualidade ou não, nos traz questões relacionadas
a essas temáticas e nos refresca a memória. O recente longa-metragem Selma, da diretora Ava DuVernay, traz no
roteiro a cinebiografia do conhecido pastor negro Martin Luther King. O filme
foca a década de 1960, quando King liderou uma passeata nos EUA, da cidade
Selma até Montgomery, capital do estado do Alabama.
Nessa
marcha histórica, os manifestantes pleiteavam o direito de votar, proibido a
pessoas negras. O filme escancara o racismo norte-americano da época e provoca,
sem ser panfletário, uma reflexão sobre o assunto. As cenas são recheadas por
potentes diálogos críticos. A eloquência de Luther King, um exímio orador, é
muito bem personificada pelo ator David Oyelowo. É certamente o ponto elevado
das duas horas e oito minutos de filme. Agrada a todos apreciadores de um
espetacular discurso. King inspira o bom falar.
Filmes
históricos ou de célebres pessoas como Martin Luther King às vezes dão a falsa
impressão de serem de épocas remotas. E o duro é que Selma não é de um tempo caduco. Os fatos que ali são retratados não
têm nem cem anos. Historicamente, são quase saídos da maternidade. Isso é
preocupante. O que se narra no filme, entre outros, é uma das piores máculas da
nossa humanidade: o racismo.
Dentro
desse sórdido ingrediente estão a segregação e privação de direitos básicos. Selma é uma obra universal quando
encarados o desafio e a necessidade de se lutar pela igualdade de direitos. Na
democracia qualquer cidadão é igual ao outro e o voto é um bem comum.
Selma tecnicamente apresenta mínimos
"defeitos". O tom triste da música em certas cenas pode ser encarado
como clichê para alguns exigentes de inovação total. Não há a preocupação,
excessiva, para comover o espectador com a parceria cena triste e melodias
chorosas. É apenas um elemento coesivo com o evento. O importante é se fixar na
oratória de King e refletir profundamente nas ideias por ele defendidas de uma
sociedade mais justa, em que independentemente de raça ou credo as pessoas
possam viver harmonicamente. Não é fácil. Mas é possível levar adiante esse
sonho de Luther King e modificar positivamente o quadro das injustiças. Isso
tudo usando apenas uma arma: o pacifismo.
Assistir
a Selma é uma boa tarefa de
aprendizado de como devemos evitar repetir erros de um passado não tão distante.
A obra de Ava DuVernay não é sobre a luta de um homem, de um mártir, é sobre o
tumor hipermaligno do racismo, do preconceito que assola a humanidade. O cinema
pode contribuir para sermos tolerantes. Selma
é a marcha para todos nós. Marchemos!
Vitor Miranda


