segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O voo de Birdman

          Depois de esperar com certa ansiedade devido às dezenas de bons comentários a respeito dele, assisti a Birdman, um dos favoritos ao Oscar 2015. Não achei uma obra-prima, mas é um bom filme. Sua qualidade de destaque, na minha visão, é ele ser direto no que diz na maior parte de suas duas horas. Há críticas visíveis e metáforas quase denotativas.
          O filme é uma metalinguagem bem lúcida do mundo artístico, aqui ilustrada pelo teatro e o cinema. Em ambos seu protagonista Riggan Thomson, numa clamorosa interpretação de Michael Keaton, escancara o que ele foi e é. No cinema do passado ficou seu mais ilustre trabalho, o Birdman, que dá nome ao filme. O presente mostra um ator e diretor de teatro entre a cruz e a espada. Melhor é fazer arte ou sucesso apenas? Os dois são possíveis concomitantemente?
          A simbólica esquizofrenia de Riggan ouvindo às vezes e outras vendo seu homem-pássaro é uma evidente metáfora da prisão que se tem ao garantido de estar nos holofotes. Garantir o sucesso com um super-herói, ainda que haja qualidade inoperante nele, é uma quase entrega do protagonista. O mundo das celebridades seduz o ego, rega a vaidade com águas dopantes e amplia a sede do quero mais e mais.
          Somam-se a isso aspectos secundários, como conflitos familiares, reabilitação da filha drogada, ator que enxerga a própria vida quando ela é ficção (nesse papel está Mike, bem representado por Edward Norton) e o que acho o grande destaque dos secundarismos do filme, os bastidores do palco. Por trás das cortinas está o que fica escuso à plateia. A atriz que clama por reconhecimento, a fraqueza emotiva, problemas logísticos e financeiros para se levar ao palco uma encenação, falar não ao ator não-talentoso, saber separar o real do fictício, medo do fracasso entre outros.
          Birdman voa alto no que se propõe. É um filme que não desperdiça nossas duas horas diante sua narrativa. As críticas não são pedantes. São sinceras e transparentes na boa maioria das cenas. Não é realmente obra-prima da sétima arte, mas certamente está entre os melhores filmes produzidos ultimamente da famigerada indústria cinematográfica.

Vitor Miranda

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