terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O coronel e nós

       
Terminei há pouco de ler mais uma grande obra da literatura mundial. Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez, segunda obra do autor e lançada em 1957. Uma novela de precisão concisa e angustiante. Nela, um coronel aguarda há vários anos, toda sexta-feira, a chegada do carteiro com a correspondência de sua merecida aposentadoria. No passado, esteve ele na guerra civil de seu país. Vivem juntos o coronel, sua esposa asmática e um galo, lembrança do falecido filho do casal. O rapaz, um ano atrás, fora assassinado depois de ser alvejado por estar numa rinha distribuindo panfletos subversivos.
          É angustiante a espera do coronel, passando por dificuldades financeiras há tempos. Além, é claro, da dor nunca cicatrizada pela perda de seu único filho.
          As quase cem páginas tão bem construídas por García Márquez podem ser, na sua essência, resumidas em uma palavra: privação.
          As privações narradas ao longo dessa narrativa se apresentam tanto no plano físico quanto abstrato. No plano físico há a privação do dinheiro e suas consequências. O casal já com poucos recursos fica entre a cruz e a espada quanto à comida. Alimentam-se as bocas humanas ou o galo? Alimentar o galo é investir no futuro? Vai ressarcir com vitórias nas rinhas?
          A saúde é outra privação. A esposa do coronel é extremamente asmática e, lógico, privada de uma saúde taurina. Vive boa parte do tempo na cama. Mesmo debilitada é o pilar principal do coronel para ainda ter vontade de viver.
          Liberdade de expressão é mais uma privação. Esta, todavia, não se restringe ao casal. É a privação que emudece e deixa quem a infringe sempre alerta por uma provável retaliação do poder constituinte. A subversão tem um preço alto, assim como pagara o filho do coronel com a vida.
          É evidente que a privação mais latente da novela é o filho. Há tristeza pela falta do dinheiro, há tristeza pela saúde frágil da mulher do coronel, há tristeza pelas bocas fechadas e há um universo de tristezas pela morte do filho. Augustín, o filho, é a privação que sempre será privação para o casal. As outras privações ainda podem ser resolvidas, no entanto, a do filho é perda eterna e dor aguda, que se perpetua na imagem do galo.
          Gabo, como era chamado carinhosamente Gabriel García Márquez, não deixa para segundo plano a preocupação com a linguagem. Choca com beleza o leitor. Dá a ele metáforas insólitas, inesperadas. Em outros momentos apresenta termos "sujos", como no último parágrafo do livro, de uma só palavra. Essa quebra linguística, esse uso não-poético da linguagem é para aproximar a literatura de nossa vida real. É mostrar que o sublime da linguagem, que é a literatura, também está de mãos dadas com o banal.
          Recebe destaque também o aspecto visual e sonoro presentes nas letras de Gabo. Parece, por exemplo, ser interesse grande do autor a visualização da ferrugem da lata de café no início da história. O chão de barro batido. A palha da casa. Tudo se encaixa num mosaico de precisão única e ótica.
          O ouvido do leitor parece unir-se ao do coronel quando este, tentando não ouvir mas ouvindo, se angustia com uma goteira no teto. Quer ignorá-la e dormir, mas há poderes além da capacidade humana. A impotência vence o sono e tortura o coronel com pensamentos corrosivos.
          Ninguém escreve ao coronel é triste. É uma história de privações dolorosas. Porém seu autor com maestria atenua para o leitor essas experiências por meio da linguagem e o carrega amigavelmente durante a leitura. Ficamos cúmplices do coronel e sua esposa em vários momentos. Sofremos um pouco com eles no balaio das privações. Sofrimento maior, contudo, é privar-se de ler esse livro e deixar de aprender um pouco mais daquilo que está ou pode estar na nossa vida particular e mesmo na social.
Vitor Miranda 

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