Criar narrativas curtas de grande
qualidade não é uma tarefa das mais fáceis. É um terreno perigoso, delicado e
exige maestria. Na literatura, há contistas célebres como, por exemplo, Machado
de Assis e Jorge Luis Borges. Clarice Lispector é outra desse time. No cinema,
raros são os cineastas que têm essa proeza. A linguagem cinematográfica
comumente apresenta narrativas em torno de duas horas. Fazer um filme com meia
hora ou menos de duração soa estranho para o espectador e o mercado. A saída
para filmes com curtas histórias é ter várias histórias no mesmo filme. Mas
disso surge um embaraço na cabeça do cineasta. É preciso costurar essas
histórias independentes de forma que haja entre elas um ponto em comum. Feito isso, o
trabalho ganha palmas.
O argentino Relatos Selvagens, do diretor Damián Szifron e produção do
premiadíssimo Pedro Almodóvar, consegue com enorme competência a coesão do
mosaico de suas seis narrativas independentes. São histórias de tirar o fôlego.
O filme ainda tem o privilégio de contar em seu elenco com o talento de Ricardo
Darín. Ele é o protagonista da quarta história e faz uma exibição genial, pra
variar.
Relatos
Selvagens escancara a nossa selvageria humana ao expor em todas as
histórias o quão somos violentos e sedentos por vingança. Pode ser a vingança
adormecida desde a infância ou uma momentânea. Situações são diversificadas. Um
voo, agiotagem, trânsito, uma multa, um casamento.
O filme é bem construído e mínimos
são os defeitos. Apenas a quinta narrativa, sobre um rapaz embriagado e da alta
classe social que atropela e mata uma mulher grávida, deixa indícios lá pela
metade a respeito do desfecho. Mas ainda assim a previsibilidade não macula a
obra.
Duas histórias merecem um destaque
especial. Uma delas é logo a primeira narrativa. Uma série de eventos negativos
na vida de um homem parece estar adormecida e, quando se manifesta, é como um
vulcão inativo há séculos cuspindo de repente toda a sua fúria antes letárgica.
A outra história é a quarta, protagonizada por Ricardo Darín. É a vingança de
um homem que se vê injustiçado pelo sistema, no caso, leis de trânsito. Em meia
hora temos momentos reflexivos proporcionados pela argúcia argumentativa do
personagem de Darín. Há também um certo humor refinado em alguns momentos dessa
narrativa.
Estranhei o filme não ter vencido o
Oscar na categoria filme estrangeiro. A estatueta ficou com o polonês Ida. Vi este também. Filme razoável, de
temática judia e com uma fotografia belíssima, mas longe de ser melhor que Relatos Selvagens. Não mereceu vencer
definitivamente. Mas a academia tem lá suas convicções/interesses.
Esperei muito para assistir a Relatos Selvagens. Certamente cada
segundo da longa espera não foi em
vão. As duas horas de filme confirmam algo que há tempos é
evidente: o cinema argentino está no seu auge e não deve atualmente nada de
nada a nenhuma produção cinematográfica, seja ela estadunidense ou europeia. E
com Ricardo Darín, aí já é apelação.
Vitor
Miranda

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