domingo, 1 de março de 2015

Nossa selvageria

            Criar narrativas curtas de grande qualidade não é uma tarefa das mais fáceis. É um terreno perigoso, delicado e exige maestria. Na literatura, há contistas célebres como, por exemplo, Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Clarice Lispector é outra desse time. No cinema, raros são os cineastas que têm essa proeza. A linguagem cinematográfica comumente apresenta narrativas em torno de duas horas. Fazer um filme com meia hora ou menos de duração soa estranho para o espectador e o mercado. A saída para filmes com curtas histórias é ter várias histórias no mesmo filme. Mas disso surge um embaraço na cabeça do cineasta. É preciso costurar essas histórias independentes de forma que haja entre elas um ponto em comum. Feito isso, o trabalho ganha palmas.
            O argentino Relatos Selvagens, do diretor Damián Szifron e produção do premiadíssimo Pedro Almodóvar, consegue com enorme competência a coesão do mosaico de suas seis narrativas independentes. São histórias de tirar o fôlego. O filme ainda tem o privilégio de contar em seu elenco com o talento de Ricardo Darín. Ele é o protagonista da quarta história e faz uma exibição genial, pra variar.
             Relatos Selvagens escancara a nossa selvageria humana ao expor em todas as histórias o quão somos violentos e sedentos por vingança. Pode ser a vingança adormecida desde a infância ou uma momentânea. Situações são diversificadas. Um voo, agiotagem, trânsito, uma multa, um casamento.
            O filme é bem construído e mínimos são os defeitos. Apenas a quinta narrativa, sobre um rapaz embriagado e da alta classe social que atropela e mata uma mulher grávida, deixa indícios lá pela metade a respeito do desfecho. Mas ainda assim a previsibilidade não macula a obra.
            Duas histórias merecem um destaque especial. Uma delas é logo a primeira narrativa. Uma série de eventos negativos na vida de um homem parece estar adormecida e, quando se manifesta, é como um vulcão inativo há séculos cuspindo de repente toda a sua fúria antes letárgica. A outra história é a quarta, protagonizada por Ricardo Darín. É a vingança de um homem que se vê injustiçado pelo sistema, no caso, leis de trânsito. Em meia hora temos momentos reflexivos proporcionados pela argúcia argumentativa do personagem de Darín. Há também um certo humor refinado em alguns momentos dessa narrativa.
            Estranhei o filme não ter vencido o Oscar na categoria filme estrangeiro. A estatueta ficou com o polonês Ida. Vi este também. Filme razoável, de temática judia e com uma fotografia belíssima, mas longe de ser melhor que Relatos Selvagens. Não mereceu vencer definitivamente. Mas a academia tem lá suas convicções/interesses.
            Esperei muito para assistir a Relatos Selvagens. Certamente cada segundo da longa espera não foi em vão. As duas horas de filme confirmam algo que há tempos é evidente: o cinema argentino está no seu auge e não deve atualmente nada de nada a nenhuma produção cinematográfica, seja ela estadunidense ou europeia. E com Ricardo Darín, aí já é apelação.

Vitor Miranda      

Nenhum comentário:

Postar um comentário