domingo, 29 de março de 2015

Selma: a marcha para todos

          A História de ontem e a contemporânea dão muitos exemplos de como o mundo humano é repleto de injustiças a serem superadas – sejam elas políticas, sociais ou religiosas. O cinema vez ou outra, com qualidade ou não, nos traz questões relacionadas a essas temáticas e nos refresca a memória. O recente longa-metragem Selma, da diretora Ava DuVernay, traz no roteiro a cinebiografia do conhecido pastor negro Martin Luther King. O filme foca a década de 1960, quando King liderou uma passeata nos EUA, da cidade Selma até Montgomery, capital do estado do Alabama.
          Nessa marcha histórica, os manifestantes pleiteavam o direito de votar, proibido a pessoas negras. O filme escancara o racismo norte-americano da época e provoca, sem ser panfletário, uma reflexão sobre o assunto. As cenas são recheadas por potentes diálogos críticos. A eloquência de Luther King, um exímio orador, é muito bem personificada pelo ator David Oyelowo. É certamente o ponto elevado das duas horas e oito minutos de filme. Agrada a todos apreciadores de um espetacular discurso. King inspira o bom falar.
          Filmes históricos ou de célebres pessoas como Martin Luther King às vezes dão a falsa impressão de serem de épocas remotas. E o duro é que Selma não é de um tempo caduco. Os fatos que ali são retratados não têm nem cem anos. Historicamente, são quase saídos da maternidade. Isso é preocupante. O que se narra no filme, entre outros, é uma das piores máculas da nossa humanidade: o racismo.
          Dentro desse sórdido ingrediente estão a segregação e privação de direitos básicos. Selma é uma obra universal quando encarados o desafio e a necessidade de se lutar pela igualdade de direitos. Na democracia qualquer cidadão é igual ao outro e o voto é um bem comum.
          Selma  tecnicamente apresenta mínimos "defeitos". O tom triste da música em certas cenas pode ser encarado como clichê para alguns exigentes de inovação total. Não há a preocupação, excessiva, para comover o espectador com a parceria cena triste e melodias chorosas. É apenas um elemento coesivo com o evento. O importante é se fixar na oratória de King e refletir profundamente nas ideias por ele defendidas de uma sociedade mais justa, em que independentemente de raça ou credo as pessoas possam viver harmonicamente. Não é fácil. Mas é possível levar adiante esse sonho de Luther King e modificar positivamente o quadro das injustiças. Isso tudo usando apenas uma arma: o pacifismo.  
          Assistir a Selma é uma boa tarefa de aprendizado de como devemos evitar repetir erros de um passado não tão distante. A obra de Ava DuVernay não é sobre a luta de um homem, de um mártir, é sobre o tumor hipermaligno do racismo, do preconceito que assola a humanidade. O cinema pode contribuir para sermos tolerantes. Selma é a marcha para todos nós. Marchemos!

Vitor Miranda

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