Michael
Keaton disse dias atrás que ele deveria ter sido contemplado com o Oscar de
melhor ator por Birdman. Sem dúvida
ele fez brilhantemente o protagonista do filme. Keaton ainda complementou seu
comentário dizendo, acidamente, que Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) o venceu porque Hollywood sempre contempla
filmes-doença.
Vi
ambos os filmes. E me desculpe, Michael, mas discordo de você quanto à recente
premiação de melhor ator. Eddie mereceu, mesmo Birdman sendo um filme superior à Teoria.
A Teoria de Tudo é a cinebiografia do
consagrado físico inglês Stephen Hawking, paralisado desde a década de 1960 com
esclerose lateral amiotrófica (ELA). À época, os médicos deram a ele, após o
diagnóstico, mais dois anos de vida no máximo. Anos e décadas seguintes
mostraram que a ciência também erra.
Para
mim, o ponto alto de A Teoria de Tudo,
no quesito ator, foi explorar um recurso
difícil de ser bem administrado em um gênero como a cinebiografia: a
caricatura. Por se tratar de um drama, essa dificuldade se intensifica
consideravelmente.
A
caricatura é um recurso frequente no cinema, primordialmente na comédia. Tal
gênero exige personagens tipos, caricatos. Daí que ora ou outra vemos a
caricatura (exagero físico ou de comportamento) do sovina, preguiçoso,
ignorante, vagabundo, corrupto, glutão, valentão, covarde, obsessivo pelo
físico e por aí vai.
Guardadas
as semelhanças e (muitas) diferenças, Remayne está para Stephen Hawking assim como
Chaplin para o eternizado vagabundo. É o matrimônio feliz e sem divórcio entre
ator e personagem caricato.
A
caricatura inicial no filme, do estudante nerd, não diz respeito
especificamente a Hawking. Diz respeito ao nerd em geral, pelo menos ao das décadas
de 1950 e 60. É apenas nessa que Eddie não é brilhante. É mais um ator numa
cena banal. Talvez Michael Keaton possa se apegar a esse episódio do filme para
se defender com seu Birdman. No
entanto, é na paralisia que Eddie mostra todo seu dinamismo artístico. Desse
momento em diante a caricatura, sim, atinge seu ápice na história. Por esse
motivo, e por outros, Hollywood fez bem ao apontar o vencedor da categoria ator
2015.
O filme
ainda abre espaço para algumas licenças poéticas, como a epifania no fogo da
lareira que incendeia uma ideia em Stephen Eddie Hawking.
Somado a isso, há certas garoas de humor em algumas falas de Eddie para abrir
espaço à fugacidade, ainda que efêmera, na sofrida vida de um dos maiores
físicos do século passado.
O
diretor de A Teoria de Tudo, James
Marsh, foi um verdadeiro maestro na direção e seu músico, Eddie Redmayne, um
primoroso executor da caricatura. Fez habilmente desta uma virtude cinematográfica
e, por consequência, uma das espinhas dorsais do filme. Quem ainda não viu,
está perdendo uma célebre atuação. A
Teoria de Tudo pode e deve orgulhar-se de seu ator principal. Sorte nossa.
Vitor Miranda

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