domingo, 15 de março de 2015

A Teoria de Tudo e a virtude da caricatura

          Michael Keaton disse dias atrás que ele deveria ter sido contemplado com o Oscar de melhor ator por Birdman. Sem dúvida ele fez brilhantemente o protagonista do filme. Keaton ainda complementou seu comentário dizendo, acidamente, que Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) o venceu porque Hollywood sempre contempla filmes-doença.
          Vi ambos os filmes. E me desculpe, Michael, mas discordo de você quanto à recente premiação de melhor ator. Eddie mereceu, mesmo Birdman sendo um filme superior à Teoria.
          A Teoria de Tudo é a cinebiografia do consagrado físico inglês Stephen Hawking, paralisado desde a década de 1960 com esclerose lateral amiotrófica (ELA). À época, os médicos deram a ele, após o diagnóstico, mais dois anos de vida no máximo. Anos e décadas seguintes mostraram que a ciência também erra.
          Para mim, o ponto alto de A Teoria de Tudo, no quesito ator,  foi explorar um recurso difícil de ser bem administrado em um gênero como a cinebiografia: a caricatura. Por se tratar de um drama, essa dificuldade se intensifica consideravelmente.
          A caricatura é um recurso frequente no cinema, primordialmente na comédia. Tal gênero exige personagens tipos, caricatos. Daí que ora ou outra vemos a caricatura (exagero físico ou de comportamento) do sovina, preguiçoso, ignorante, vagabundo, corrupto, glutão, valentão, covarde, obsessivo pelo físico e por aí vai.
          Em A Teoria de Tudo Eddie Remayne, de fato, personificou a aparência e enfermidade do biografado. Quem assiste não fica hipnotizado por um aspecto ou outro dessa genial caricatura, mas sim por sua totalidade, pelo conjunto de caracteres que a compõe. O ator usa o exagero sem extrapolar.
          Guardadas as semelhanças e (muitas) diferenças, Remayne está para Stephen Hawking assim como Chaplin para o eternizado vagabundo. É o matrimônio feliz e sem divórcio entre ator e personagem caricato.
          A caricatura inicial no filme, do estudante nerd, não diz respeito especificamente a Hawking. Diz respeito ao nerd em geral, pelo menos ao das décadas de 1950 e 60. É apenas nessa que Eddie não é brilhante. É mais um ator numa cena banal. Talvez Michael Keaton possa se apegar a esse episódio do filme para se defender com seu Birdman. No entanto, é na paralisia que Eddie mostra todo seu dinamismo artístico. Desse momento em diante a caricatura, sim, atinge seu ápice na história. Por esse motivo, e por outros, Hollywood fez bem ao apontar o vencedor da categoria ator 2015.
          O filme ainda abre espaço para algumas licenças poéticas, como a epifania no fogo da lareira que incendeia uma ideia em Stephen Eddie Hawking. Somado a isso, há certas garoas de humor em algumas falas de Eddie para abrir espaço à fugacidade, ainda que efêmera, na sofrida vida de um dos maiores físicos do século passado.
          O diretor de A Teoria de Tudo, James Marsh, foi um verdadeiro maestro na direção e seu músico, Eddie Redmayne, um primoroso executor da caricatura. Fez habilmente desta uma virtude cinematográfica e, por consequência, uma das espinhas dorsais do filme. Quem ainda não viu, está perdendo uma célebre atuação. A Teoria de Tudo pode e deve orgulhar-se de seu ator principal. Sorte nossa.

Vitor Miranda

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