As diferentes manifestações textuais
se enriquecem, e muito, quando dialogam competentemente com gêneros ou textos
aclamados (intertextualidade). Outras vezes o diálogo intertextual, implícito
ou explícito, se comunica com acontecimentos da realidade. Quando isso ocorre –
obviamente –, é preciso o leitor estar a par do repertório ali explorado. Além
disso, o leitor, não propriamente da linguagem verbal, precisa estar atento e,
dependendo da profundidade das referências intertextuais, aguçar a
sensibilidade para captar a rede de informações diante de si.
Um exemplo bem ilustrativo de
referências a fatos e obras terceiras pode ser observado no excelente
vídeo-clipe Next Year, da banda
norte-americana Foo Fighters.
Lançado em 2000, o vídeo apresenta
uma das músicas de trabalho do álbum There's
Nothing Left to Lose. Nas cenas, aparecem os quatro integrantes da banda
vestidos de astronautas rumo ao espaço. É evidente a referência à viagem do
homem à lua em 1969. Desse modo, é importante ter esse fato em consideração
para fazer as leituras permitidas pelo vídeo da banda.
A licença poética se nota, entre
outros porquês, pela apresentação musical dentro da espaçonave. O protocolo da
Nasa dá espaço à música. Esta ganha o destaque e dele não abre mão.
A letra de Next Year evidentemente não é sobre a conquista da lua e nem da
corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos durante a Guerra Fria. Os
versos são de teor figurativo, poético. Claro que em determinadas passagens como,
por exemplo, I'm in the sky tonight /
There I can keep by your side, o diálogo
com viagem espacial se estabelece e nasce o vídeo-clipe, a intertextualidade.
Esse tipo de intertextualidade
recebe o nome de paródia, pois retoma um conhecido texto/situação aplicando-o em
outro contexto. Nesse trabalho também está presente o humor, que pode ser ácido
ou não. Em Next Year as imagens
com certeza dispensam o humor ácido de certas paródias e põem em prática a
suavidade desse recurso da linguagem.
O humor é notável na troca do nome
da Nasa pelo da banda, seja no foguete ou no uniforme. Ademais, o gesto
clássico da bandeira dos EUA fincada no terreno lunar cede lugar a uma bandeira
com FF, ou seja, iniciais do nome da banda. Essa mudança nominal não é
meramente manifestação de um humor intencional. A troca simboliza a conquista
pessoal da banda, e não mais a de uma nação ou da humanidade.
Posteriormente, o humor sai de cena
e imagens em quadros sucessivos, no final, concluem com uma crítica nada
atemporal, infelizmente. Trata-se da ironia humana de vencer limites com alta
tecnologia (nesse caso desbravando o espaço) e ser incapaz (ou egoísta?) de
vencer problemas sociais crônicos por aqui. As cenas de guerra sugerem isso.
Merece nota uma imagem rápida aos
2min12: um triângulo com feixes coloridos. A imagem é semelhante à capa de um clássico
álbum, de 1973, da banda britânica Pink Floyd. Sugestivamente, o nome do álbum
é The Dark Side of the Moon. Tanto o clipe
do Foo Fighters quanto Pink Floyd fazem referência à lua (Moon).
Foo Fighters, portanto, dialogam com
o evento espacial de 1969, com um clássico álbum progressista de 1973 e
apresentam isso tudo em um vídeo-clipe produzido em 2000. O múltiplo
temporalismo dessa gravação áudio-visual é de grande beleza e qualidade.
Conhecer as referências presentes no vídeo-clipe de Next Year amplia a compreensão da obra e leva o espectador/leitor à
essência proposta por banda e direção de arte nessa gravação.
Vitor
Miranda
Nenhum comentário:
Postar um comentário