quinta-feira, 9 de julho de 2015

As viagens em Next Year

            As diferentes manifestações textuais se enriquecem, e muito, quando dialogam competentemente com gêneros ou textos aclamados (intertextualidade). Outras vezes o diálogo intertextual, implícito ou explícito, se comunica com acontecimentos da realidade. Quando isso ocorre – obviamente –, é preciso o leitor estar a par do repertório ali explorado. Além disso, o leitor, não propriamente da linguagem verbal, precisa estar atento e, dependendo da profundidade das referências intertextuais, aguçar a sensibilidade para captar a rede de informações diante de si.
            Um exemplo bem ilustrativo de referências a fatos e obras terceiras pode ser observado no excelente vídeo-clipe Next Year, da banda norte-americana Foo Fighters.
            Lançado em 2000, o vídeo apresenta uma das músicas de trabalho do álbum There's Nothing Left to Lose. Nas cenas, aparecem os quatro integrantes da banda vestidos de astronautas rumo ao espaço. É evidente a referência à viagem do homem à lua em 1969. Desse modo, é importante ter esse fato em consideração para fazer as leituras permitidas pelo vídeo da banda.
            A licença poética se nota, entre outros porquês, pela apresentação musical dentro da espaçonave. O protocolo da Nasa dá espaço à música. Esta ganha o destaque e dele não abre mão.
            A letra de Next Year evidentemente não é sobre a conquista da lua e nem da corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos durante a Guerra Fria. Os versos são de teor figurativo, poético. Claro que em determinadas passagens como, por exemplo, I'm in the sky tonight / There I can keep by your side, o diálogo com viagem espacial se estabelece e nasce o vídeo-clipe, a intertextualidade.
            Esse tipo de intertextualidade recebe o nome de paródia, pois retoma um conhecido texto/situação aplicando-o em outro contexto. Nesse trabalho também está presente o humor, que pode ser ácido ou não. Em Next Year as imagens com certeza dispensam o humor ácido de certas paródias e põem em prática a suavidade desse recurso da linguagem.
            O humor é notável na troca do nome da Nasa pelo da banda, seja no foguete ou no uniforme. Ademais, o gesto clássico da bandeira dos EUA fincada no terreno lunar cede lugar a uma bandeira com FF, ou seja, iniciais do nome da banda. Essa mudança nominal não é meramente manifestação de um humor intencional. A troca simboliza a conquista pessoal da banda, e não mais a de uma nação ou da humanidade.
            Posteriormente, o humor sai de cena e imagens em quadros sucessivos, no final, concluem com uma crítica nada atemporal, infelizmente. Trata-se da ironia humana de vencer limites com alta tecnologia (nesse caso desbravando o espaço) e ser incapaz (ou egoísta?) de vencer problemas sociais crônicos por aqui. As cenas de guerra sugerem isso.
            Merece nota uma imagem rápida aos 2min12: um triângulo com feixes coloridos. A imagem é semelhante à capa de um clássico álbum, de 1973, da banda britânica Pink Floyd. Sugestivamente, o nome do álbum é The Dark Side of the Moon. Tanto o clipe do Foo Fighters quanto Pink Floyd fazem referência à lua (Moon).
            Foo Fighters, portanto, dialogam com o evento espacial de 1969, com um clássico álbum progressista de 1973 e apresentam isso tudo em um vídeo-clipe produzido em 2000. O múltiplo temporalismo dessa gravação áudio-visual é de grande beleza e qualidade. Conhecer as referências presentes no vídeo-clipe de Next Year amplia a compreensão da obra e leva o espectador/leitor à essência proposta por banda e direção de arte nessa gravação.

Vitor Miranda

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