quinta-feira, 16 de julho de 2015

Velas Poéticas

            É impressionante como o Nordeste brasileiro produz tantos músicos admiráveis. Nem citarei a penca deles, pois se faz desnecessário o ato. Entre esses tesouros musicais, brilha Raimundo Fágner com raios fúlgidos particulares. Letras? Várias. Um exemplo? "Mucuripe", em parceria com outro gênio nordestino, Belchior.
            A construção linguística se vê no início, com os versos conotativos As velas do Mucuripe / Vão sair para pescar. Aqui a linguagem figurada explorada é a metonímia, nesse caso trocando o conteúdo pelo continente. Ou seja, quem pescará são os pescadores, e não as velas. Estas simbolicamente representam aqueles.
            Recebe destaque também o lirismo plástico em Calça nova de riscado / Paletó de linho branco / Que até o mês passado / Lá no campo ainda era flor.  Novamente uma troca, não linguística, e sim pragmática.
            Esse pragmatismo, comum há tempos na sociedade humana, simplesmente consiste em pegar a matéria-prima e transformá-la em bens materiais banais, como a calça e o paletó citados na canção. Enquanto flor, essa matéria-prima está no campo sem serventia alguma aos olhos do senso comum. Ganha protagonismo apenas quando é arrancada da terra e vai para o ventre da fabricação têxtil para renascer em forma de roupa. Essa metamorfose, campo-fábrica, é triste fora dos olhos do senso comum, mas ainda assim bela, tristemente bela.
            Mucuripe, com sua letra e melodia, é prova de que a música (quando profunda) é uma arte cumpridora de um dos papéis fundamentais da produção artística: tocar a sensibilidade humana expandindo toda a sua potencialidade.

Vitor Miranda

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