A construção linguística se vê no
início, com os versos conotativos As
velas do Mucuripe / Vão sair para pescar. Aqui a linguagem figurada
explorada é a metonímia, nesse caso trocando o conteúdo pelo continente. Ou
seja, quem pescará são os pescadores, e não as velas. Estas simbolicamente representam
aqueles.
Recebe destaque também o lirismo
plástico em Calça nova de riscado /
Paletó de linho branco / Que até o mês passado / Lá no campo ainda era flor. Novamente uma troca, não linguística, e sim pragmática.
Esse pragmatismo, comum há tempos na
sociedade humana, simplesmente consiste em pegar a matéria-prima e
transformá-la em bens materiais banais, como a calça e o paletó citados na
canção. Enquanto flor, essa matéria-prima está no campo sem serventia alguma
aos olhos do senso comum. Ganha protagonismo apenas quando é arrancada da terra
e vai para o ventre da fabricação têxtil para renascer em forma de roupa. Essa
metamorfose, campo-fábrica, é triste fora dos olhos do senso comum, mas ainda
assim bela, tristemente bela.
Mucuripe,
com sua letra e melodia, é prova de que a música (quando profunda) é uma arte
cumpridora de um dos papéis fundamentais da produção artística: tocar a sensibilidade
humana expandindo toda a sua potencialidade.
Vitor
Miranda
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