A resignificaçao dos sermões
barrocos de Padre Vieira, mais de quatro séculos depois, é espantosa. Um de seus textos
mais líricos, belos e reflexivos é o sermão de Santo Antônio. Resumidamente,
trata-se da pregação àqueles que podem mas se recusam a ouvir,
consequentemente, o orador troca seu público para os que ouvem-no. Nesse sermão
Antônio deixa de pregar aos homens e vai pregar aos peixes. Estes têm o dom de
apenas ouvir e não falar. Aqueles podem ouvir e falar, entretanto não fazem questão de ouvir ensinamentos.
Pois bem, dada a recente denúncia de
corrupção contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, há
manifestações interessantes no universo de comentários na internet. Há muitos
que ignoram as denúncias não querendo ouvir as suspeitas de corrupção contra
seu líder conservador, retrógrado. Comportam-se como os homens do sermão, quando deveriam
ser os peixes e não nadar contra o bom senso. Ora, se a denúncia os faz
suspeitar de um, a outra denúncia não deveria ter tratamento distinto. Isso é
desonestidade intelectual e política.
Viera continua sendo fundamental
leitura e releitura por aqui.
Vitor
Miranda
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