domingo, 26 de julho de 2015

Punindo Maria

Fundamentalismo religioso tornou-se um assunto frequente na mídia. Ele é um tumor maligno que não se ausenta no Oriente e nem no Ocidente. Exemplos são fartos, infelizmente. É a menina levando pedrada após sair de um culto candomblé, são bombas explodindo no universo oriental, monumentos históricos destruídos e pessoas exterminadas. Tudo tendo o arsenal pútrido daqueles que elevam ao máximo seus ideais divinos, às vezes contrariando a paz proposta por seus respectivos deuses. O mundo não se tornou mais lúcido mesmo atingindo altos patamares tecnológicos. Há ignorância e imposição vazando por vários poros. Não se segue o deus mas aquilo que meu pensamento extremo impõe. A cerca disso, ilustra brilhantemente o assunto um recente filme alemão, 14 Estações de Maria.
          O filme gira em torno de Maria, filha de pais católicos fundamentalistas. A menina tem 3 irmãos, um deles mudo. A mudez chega a ser vista pela família como vontade divina, um teste de Deus para ver se a fé deles realmente existe e está acima de tudo.
          Os pais sufocam Maria com uma tradição religiosa de hermetismo absurdo à modernidade. Vetam aos filhos, por exemplo, amizades e músicas não ligadas à religião da família. Maria absorve a situação toda e sua liberdade é atrofiada. O título é uma referência às etapas da vida de Jesus Cristo.
          Há uma série de elementos bem explorados no filme. O discurso da mãe, principalmente, é medieval e assombra Maria no dia a dia. O diretor não esconde nos 14 quadros / capítulos o diálogo cinema e teatro. A câmera em cada um dos capítulos do filme tem um único enquadramento. Não há ângulos diversos e as cenas funcionam como um palco.
          A simbologia da trindade salta aos olhos. Diversas vezes nota-se a presença de uma tríade. São 3 pessoas num espaço, 3 cadeiras, 3 bancos do carro em destaque, 3 estantes de livros. A montagem é clara e não exige muito esforço para ser percebida.
          Um  momento dramático e cômico inesquecível do filme ocorre na escola durante a aula de educação física de Maria. A professora coloca a música The Look, da dupla sueca Roxette. A intenção é tornar a aula atrativa, animada. Nesse momento, Maria toma uma atitude como clara consequência da imposição religiosa da família. Ali, naquela música, certamente o demônio está presente e é preciso combatê-lo. Maria vai à luta, não pode tolerar aquilo.
          Em tempos de carros velozes e formigas no cinema, dar atenção a produções europeias como essa vinda lá da Alemanha dá esperança de poder, ainda, colher na sétima arte profundidade artística. Entreter-se não é errado, é bom. Fazer somente isso é abrir mão das possibilidades de enriquecimento mental proporcionadas pelo cinema.
          14 Estações de Maria é um filme que acerta, e muito, por não ser dogmático. Engana-se quem pensar que se trata de punir a religião e elevar o ateísmo ou mesmo a ciência. A obra é um painel minucioso e convidativo para nos propor uma reflexão séria a respeito do fundamentalismo religioso. No final, não resistimos ao convite.
Vitor Miranda  

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