Fundamentalismo religioso tornou-se um assunto
frequente na mídia. Ele é um tumor maligno que não se ausenta no Oriente e nem
no Ocidente. Exemplos são fartos, infelizmente. É a menina levando pedrada após
sair de um culto candomblé, são bombas explodindo no universo oriental,
monumentos históricos destruídos e pessoas exterminadas. Tudo tendo o arsenal
pútrido daqueles que elevam ao máximo seus ideais divinos, às vezes
contrariando a paz proposta por seus respectivos deuses. O mundo não se tornou
mais lúcido mesmo atingindo altos patamares tecnológicos. Há ignorância e
imposição vazando por vários poros. Não se segue o deus mas aquilo que meu
pensamento extremo impõe. A cerca disso, ilustra brilhantemente o assunto um
recente filme alemão, 14 Estações de
Maria.
O filme
gira em torno de Maria, filha de pais católicos fundamentalistas. A menina tem
3 irmãos, um deles mudo. A mudez chega a ser vista pela família como vontade
divina, um teste de Deus para ver se a fé deles realmente existe e está acima
de tudo.
Os pais
sufocam Maria com uma tradição religiosa de hermetismo absurdo à modernidade.
Vetam aos filhos, por exemplo, amizades e músicas não ligadas à religião da
família. Maria absorve a situação toda e sua liberdade é atrofiada. O título é
uma referência às etapas da vida de Jesus Cristo.
Há uma
série de elementos bem explorados no filme. O discurso da mãe, principalmente,
é medieval e assombra Maria no dia a dia. O diretor não esconde nos 14 quadros
/ capítulos o diálogo cinema e teatro. A câmera em cada um dos capítulos do
filme tem um único enquadramento. Não há ângulos diversos e as cenas funcionam
como um palco.
A
simbologia da trindade salta aos olhos. Diversas vezes nota-se a presença de
uma tríade. São 3 pessoas num espaço, 3 cadeiras, 3 bancos do carro em
destaque, 3 estantes de livros. A montagem é clara e não exige muito esforço
para ser percebida.
Um momento dramático e cômico inesquecível do
filme ocorre na escola durante a aula de educação física de Maria. A professora
coloca a música The Look, da dupla
sueca Roxette. A intenção é tornar a aula atrativa, animada. Nesse momento,
Maria toma uma atitude como clara consequência da imposição religiosa da
família. Ali, naquela música, certamente o demônio está presente e é preciso
combatê-lo. Maria vai à luta, não pode tolerar aquilo.
Em
tempos de carros velozes e formigas no cinema, dar atenção a produções
europeias como essa vinda lá da Alemanha dá esperança de poder, ainda, colher
na sétima arte profundidade artística. Entreter-se não é errado, é bom. Fazer
somente isso é abrir mão das possibilidades de enriquecimento mental
proporcionadas pelo cinema.
14 Estações de Maria é um filme que acerta, e muito, por não ser
dogmático. Engana-se quem pensar que se trata de punir a religião e elevar o
ateísmo ou mesmo a ciência. A obra é um painel minucioso e convidativo para nos
propor uma reflexão séria a respeito do fundamentalismo religioso. No final,
não resistimos ao convite.
Vitor Miranda

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