sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A riqueza da leitura

Determinados livros, os bons literariamente falando, nunca se encerram em si. São perceptíveis as transformações no leitor, sejam elas a curto ou a longo prazo. Daí que a importância em selecionar bons livros deve ser amplamente considerada. Para tal função, há críticos e leitores em quem confiamos e, uma vez ou outra, pedimos indicações a eles.
            Bons livros nos levam a bons livros e nos transformam. Um exemplo da ida do livro a outro livro, entre vários, está em Memórias póstumas de Brás Cubas. A genialidade de Machado de Assis, aliada à sua cultura múltipla, remete seu romance a outras importantes obras. Quando se está diante uma grande obra, há seduções nela que podem despertar o desejo literário no leitor. Em se tratando de Machado, autor de obras tão orgânicas em nossa literatura, lê-lo em profundidade fatalmente encaminhará o leitor ao Dr. Shakespeare, uma vez que as referências ao bardo inglês são exploradas com certa frequência e contextualizadas nos textos machadianos.
            Tais referências, chamadas de intertextualidade, também testam os conhecimentos prévios do leitor. Em Brás Cubas, por exemplo, tem-se, em outras palavras, o famoso aforismo da dúvida hamletiana. A saber:

            Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, — um antigo lampião de azeite, — triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna, ou lutar com ela e subjugá-la. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão.
(Memórias póstumas de Brás Cubas)
           
            Além disso, como esnobar em Brás Cubas uma personagem tão emblemática como Quincas Borba? Não dá. E Machado dá a essa personagem um romance homônimo de qualidade ímpar. Sendo assim, um grande livro também pode nos aprofundar no seu próprio autor. Nada se perde e tudo se ganha.
            Machado de Assis é apenas um exemplo entre dezenas de centenas. De um lusitano para outro lusitano também há essa relação. Fernando Pessoa nos poemas de Mensagem, única obra publicada em vida pelo poeta português, claramente dialoga com Camões, com seu Os Lusíadas.
            Os primeiros poemas de Mensagem referem-se às grandes navegações portuguesas e ao contexto patriótico lusitano, chave básica de Os Lusíadas. Considerando a complexidade da leitura renascentista dessa obra-prima de Camões, Mensagem pode ser visto como um preparo ao leitor futuro de Os Lusíadas, mesmo sendo um livro posterior a este. Óbvio que isso não é uma regra, uma consequência lógica, no entanto, há o bom risco da situação ocorrer. É interessante descartar essa possibilidade? Acredito que não.
            Nas passagens finais de Dom Quixote o protagonista diz que "livros são perigosos". Nosso louco amigo tem razão. Há, de fato, um perigo neles. Exemplos ao longo da nossa História são muitos. Na Alemanha do século XVIII quando o romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe foi publicado, em pouco tempo o livro foi proibido. Causa: muitos leitores da obra se suicidaram. Clara empatia com o texto. Eis um exemplo dos perigos alertados por Quixote. A vida imita a arte.
            E o que dizer de um livro como a Bíblia? Religioso ou não, o indivíduo ocidental é sistematicamente influenciado por ela de diversas formas. O uso de roupa liga-se ao pecado original, nosso calendário é cristão, o pensamento moralista, ganhar o pão com o próprio suor, expressões populares como "pomo de adão", enfim, temos comportamentos e cultura que, muitas vezes, nem percebemos que vêm de um livro, ou melhor, de livros, pois a Bíblia são vários livros reunidos em um.
            Tendo crença ou não, ler a Bíblia fortalece muito o nosso conhecimento para compreender melhor nosso dia a dia ocidental. É de fundamental importância até para conhecer outras obras em suas totalidades. Sem conhecer a Bíblia não se entende, por exemplo, boa parte das produções artísticas expostas em museus do mundo todo.
            Outro clássico de forte importância para a cultura de um povo é a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Essa obra máxima da literatura italiana teve marca histórica no idioma nativo. De certa forma é a mãe da difusão do italiano pelo território da bota. Na época de sua criação, o idioma oficial da Itália era o latim. Dante escreve sua obra principal usando o italiano vulgar e, consequentemente, é essa língua que vem a ser o italiano moderno. Com a Divina Comédia a vida, novamente, segue a arte.
            Quando se tem em mãos um livro de alta qualidade, e eles são muitos, nossa condição de seres pensantes e construtivos se eleva consideravelmente. A literatura possui um alto poder de mudança intelectual e nos alimenta com o prazer ou mesmo nos incomoda com certos assuntos que preferimos ignorar, mas que estão ao nosso lado desde tempos remotos. Ler é primordial para uma vida mais rica e consciente.

Vitor Miranda

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