segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Karnal: reflexões capitais

          Há certos livros cujos títulos, à primeira vista, enganam. Limitam o assunto a ser lido. Algumas páginas na sequência da leitura expõem a verdade. O que era pra ser meramente política, se estende às artes. O que era para ser simplesmente um crime, se mostra um tratado filosófico. Enfim, há um leque de ruas no que parecia, pela capa, apenas ser uma pequena travessa sem saída para grandes avenidas apoteóticas.
          Esse leque de múltiplas vias está no mais recente livro do historiador e professor Leandro Karnal: Pecar e Perdoar – Deus e o homem na História (Ed. Nova Fronteira, 2014). Pelo título, é provável que o leitor em geral se equivoque quanto à obra. Classificará precipitadamente como livro religioso ou algo do gênero. E não é. Religião é apenas um dos vários assuntos abordados por Karnal. O livro, na verdade, é um aprofundado levantamento crítico do autor a respeito do comportamento humano ao longo do tempo, em especial do homem medieval ao contemporâneo passando, principalmente, pelos chamados pecados capitais instituídos pela Igreja Católica.
          Leandro Karnal, assim como em suas palestras, faz uso no livro de uma linguagem bem sedutora. A ironia, em outros momentos o sarcasmo, de sua linguagem é marca forte de seu estilo vibrante. Nas 208 páginas, o leitor é provocado a refletir – concordando ou não com o autor – e certamente sai modificado do antes e após a leitura. As provocações reflexivas de Karnal soam como uma tempestade que pega de surpresa o leitor. Dessa tempestade ninguém sai sem se molhar da cabeça aos pés.
          Uma das tônicas da obra, como já mencionado anteriormente, são os chamados pecados capitais. Leandro analisa, desde o surgimento aos dias de hoje, como esses pecados sofreram mudanças ao longo dos anos. Apresenta, por exemplo, que a avareza atualmente é vista por muitos como uma virtude, pois o avarento é um poupador que planeja o futuro. Ora, o que era negativo agora ficou positivo? "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Sábio Camões!
          E por falar no bardo Camões, outra questão visível em Pecar e Perdoar é a invejável erudição de seu autor. Karnal faz, de ponta a ponta, as mais diversas intertextualidades no livro. O leitor encontra citações sobre literatura, pintura, música, filosofia adentrando nas páginas. E o elogiável disso é que o historiador não é pedante. Na verdade, as citações vêm para exemplificar, complementar o raciocínio de forma rica e produtiva.
          Dos livros que li em 2014, Pecar e Perdoar merece estar nos melhores lugares do pódio de minha estante. Trata-se de uma leitura hipnotizadora e de grande benefício intelectual. Não é ficção. São fatos que flertam com ficções artísticas dando um painel do que somos.
          Karnal demonstra que pecar e perdoar não estão limitados à esfera religiosa como grande parte das pessoas julga. Pecar e perdoar estão, também, na moral de uma sociedade que julga para não ser julgada e que raramente perdoa. É uma sociedade que se orgulha de sempre pensar que faz o certo enquanto o outro sempre faz o errado. O livro é um tapa muito dolorido, em termos, nas nossas duas faces. Há juizes e réus entre nós. Eu sempre sou o juiz virtuoso, afinal, é o outro que é constantemente o imoral, o pecador.

Vitor Miranda

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