Há
certos livros cujos títulos, à primeira vista, enganam. Limitam o assunto a ser
lido. Algumas páginas na sequência da leitura expõem a verdade. O que era pra
ser meramente política, se estende às artes. O que era para ser simplesmente um
crime, se mostra um tratado filosófico. Enfim, há um leque de ruas no que
parecia, pela capa, apenas ser uma pequena travessa sem saída para grandes
avenidas apoteóticas.
Esse
leque de múltiplas vias está no mais recente livro do historiador e professor
Leandro Karnal: Pecar e Perdoar – Deus e
o homem na História (Ed. Nova Fronteira, 2014). Pelo título, é provável que
o leitor em geral se equivoque quanto à obra. Classificará precipitadamente como
livro religioso ou algo do gênero. E não é. Religião é apenas um dos vários
assuntos abordados por Karnal. O livro, na verdade, é um aprofundado
levantamento crítico do autor a respeito do comportamento humano ao longo do
tempo, em especial do homem medieval ao contemporâneo passando, principalmente,
pelos chamados pecados capitais instituídos pela Igreja Católica.
Leandro
Karnal, assim como em suas palestras, faz uso no livro de uma linguagem bem
sedutora. A ironia, em outros momentos o sarcasmo, de sua linguagem é marca
forte de seu estilo vibrante. Nas 208 páginas, o leitor é provocado a refletir
– concordando ou não com o autor – e certamente sai modificado do antes e após
a leitura. As provocações reflexivas de Karnal soam como uma tempestade que
pega de surpresa o leitor. Dessa tempestade ninguém sai sem se molhar da cabeça
aos pés.
Uma das
tônicas da obra, como já mencionado anteriormente, são os chamados pecados
capitais. Leandro analisa, desde o surgimento aos dias de hoje, como esses
pecados sofreram mudanças ao longo dos anos. Apresenta, por exemplo, que a
avareza atualmente é vista por muitos como uma virtude, pois o avarento é um
poupador que planeja o futuro. Ora, o que era negativo agora ficou positivo?
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Sábio Camões!
E por
falar no bardo Camões, outra questão visível em Pecar e Perdoar é a invejável erudição de seu autor. Karnal faz, de
ponta a ponta, as mais diversas intertextualidades no livro. O leitor encontra
citações sobre literatura, pintura, música, filosofia adentrando nas páginas. E
o elogiável disso é que o historiador não é pedante. Na verdade, as citações
vêm para exemplificar, complementar o raciocínio de forma rica e produtiva.
Dos
livros que li em 2014, Pecar e Perdoar
merece estar nos melhores lugares do pódio de minha estante. Trata-se de uma
leitura hipnotizadora e de grande benefício intelectual. Não é ficção. São
fatos que flertam com ficções artísticas dando um painel do que somos.
Karnal demonstra
que pecar e perdoar não estão limitados à esfera religiosa como grande parte
das pessoas julga. Pecar e perdoar estão, também, na moral de uma sociedade que
julga para não ser julgada e que raramente perdoa. É uma sociedade que se
orgulha de sempre pensar que faz o certo enquanto o outro sempre faz o errado.
O livro é um tapa muito dolorido, em termos, nas nossas duas faces. Há juizes e
réus entre nós. Eu sempre sou o juiz virtuoso, afinal, é o outro que é constantemente
o imoral, o pecador.
Vitor Miranda

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