Muitos
se alarmaram com os mais de 500 mil candidatos que zeraram a redação do Enem 2014. A notícia parece ter
sido uma surpresa. Mas sejamos honestos: não há surpresa nesse episódio. Por
quê? Vamos lá!
Os
poucos candidatos de notas 1000 foram quase unânimes quando perguntados sobre
qual caminho seguir para esse resultado. Leitura e prática persistente de
escrita.
O
Brasil lê pouco, pelo menos no que diz respeito a leituras de qualidade – isso
também não é surpresa. Escrever até que se escreve muito. Como já dito pela
imprensa e fora dela, nunca se escreveu tanto como hoje em dia. No entanto, a
avalanche de escrita não é propriamente qualidade de escrita. O que se escreve
hoje, e muito, é o texto picotado, palavras mastigadas e finalizadas em farelos
de farelos.
No
computador, nas mensagens instantâneas de celular e mesmo em alguns recados
rápidos deixados em casa o que se usa são os mínimos caracteres das palavras.
Você é vc, também é tb, abraços é abs e assim por diante. Lógico que tal linguagem
quase estrangeira não é descartável totalmente. Ela tem o seu reduto de uso e
situação. Ocorre, contudo, que a prática quase exclusiva com essa linguagem
marginaliza boa parte da norma-padrão, aquela legislada pela gramática. O
usuário da língua pouco contato tem com a linguagem mais elaborada e oficial.
Hoje,
para os mais moderninhos, a linguagem que respeita ortografia, acentuação, regência
e concordância é vilã. Deve ser condenada às celas solitárias e, de
preferência, jogar as chaves fora para que lá ela fique no ostracismo.
Erradamente, muita gente se esquece de que a norma-padrão, assim como
linguagens informais, é uma variante linguística e tem seu espaço inalienável.
Trocando em miúdos: ela é exigida em certos contextos orais e escritos e não
aceita substituição. Não é pedantismo, mas sim adequação.
O Enem
privilegia a norma-padrão. Está no edital. E faz bem quanto a essa exigência.
Logo, basta dominar a norma-padrão para ser top na redação? Não. É preciso
bagagem cultural e estrutura textual eficiente para se montar um ponto crítico e persuasivo.
Voltemos
à linguagem diferente do vc, tb e abs.
Para se
ter contato com linguagens mais apuradas e trabalhadas fora de seu senso comum
e, futuramente, dominá-las, a saída prazerosa é a literatura, principalmente. E
é esse o ponto levantado pelos 250 da nota 1000. Alta literatura nos apresenta
linguagem em nível elevado que, à primeira vista até assusta, pois nos derruba
no chão, rala nossos joelhos e nos presenteia com alguns hematomas, contudo depois
ficamos escaldados e só extraímos o néctar dela. É com Machado de Assis,
Graciliano Ramos e Clarice Lispector, por exemplo, que ampliamos nosso
vocabulário e aprendemos a escrever melhor. Óbvio que outras leituras também
auxiliam no processo. Há revistas e mais autores muito bons também.
Restringir-se no dia a dia a 140 caracteres e a uma linguagem grunhida apequena
nosso intelecto e, em situações como a redação estilo Enem, travamos
literalmente.
Sei
também que há questões a mais nesse problema de tantos zeros. Governo e
sociedade são culpados, e muito, inclusive. Esta não valoriza e aquele não dá o
suporte necessário. Temos bibliotecas sucateadas, professores mal formados e
pessimamente remunerados, uma geração imediatista e hedonista que sofre horrores
para focar-se numa atividade por um período amplo (leitura requer isso: foco e intensa
dedicação).
Esse é
o diagnóstico da doença. Resta saber se o remédio vai ser oferecido e,
principalmente, utilizado. Muitos preferem não ser curados e outros não querem
ajudar com a cura. É preciso evitar a epidemia enquanto ainda há tempo.
Vitor
Miranda

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