terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Redação Zero

          Muitos se alarmaram com os mais de 500 mil candidatos que zeraram a redação do Enem 2014. A notícia parece ter sido uma surpresa. Mas sejamos honestos: não há surpresa nesse episódio. Por quê? Vamos lá!
          Os poucos candidatos de notas 1000 foram quase unânimes quando perguntados sobre qual caminho seguir para esse resultado. Leitura e prática persistente de escrita.
          O Brasil lê pouco, pelo menos no que diz respeito a leituras de qualidade – isso também não é surpresa. Escrever até que se escreve muito. Como já dito pela imprensa e fora dela, nunca se escreveu tanto como hoje em dia. No entanto, a avalanche de escrita não é propriamente qualidade de escrita. O que se escreve hoje, e muito, é o texto picotado, palavras mastigadas e finalizadas em farelos de farelos.
          No computador, nas mensagens instantâneas de celular e mesmo em alguns recados rápidos deixados em casa o que se usa são os mínimos caracteres das palavras. Você é vc, também é tb, abraços é abs e assim por diante. Lógico que tal linguagem quase estrangeira não é descartável totalmente. Ela tem o seu reduto de uso e situação. Ocorre, contudo, que a prática quase exclusiva com essa linguagem marginaliza boa parte da norma-padrão, aquela legislada pela gramática. O usuário da língua pouco contato tem com a linguagem mais elaborada e oficial.
          Hoje, para os mais moderninhos, a linguagem que respeita ortografia, acentuação, regência e concordância é vilã. Deve ser condenada às celas solitárias e, de preferência, jogar as chaves fora para que lá ela fique no ostracismo. Erradamente, muita gente se esquece de que a norma-padrão, assim como linguagens informais, é uma variante linguística e tem seu espaço inalienável. Trocando em miúdos: ela é exigida em certos contextos orais e escritos e não aceita substituição. Não é pedantismo, mas sim adequação.
          O Enem privilegia a norma-padrão. Está no edital. E faz bem quanto a essa exigência. Logo, basta dominar a norma-padrão para ser top na redação? Não. É preciso bagagem cultural e estrutura textual eficiente  para se montar um ponto crítico e persuasivo.
          Voltemos à linguagem diferente do vc, tb e abs.
          Para se ter contato com linguagens mais apuradas e trabalhadas fora de seu senso comum e, futuramente, dominá-las, a saída prazerosa é a literatura, principalmente. E é esse o ponto levantado pelos 250 da nota 1000. Alta literatura nos apresenta linguagem em nível elevado que, à primeira vista até assusta, pois nos derruba no chão, rala nossos joelhos e nos presenteia com alguns hematomas, contudo depois ficamos escaldados e só extraímos o néctar dela. É com Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector, por exemplo, que ampliamos nosso vocabulário e aprendemos a escrever melhor. Óbvio que outras leituras também auxiliam no processo. Há revistas e mais autores muito bons também. Restringir-se no dia a dia a 140 caracteres e a uma linguagem grunhida apequena nosso intelecto e, em situações como a redação estilo Enem, travamos literalmente.
          Sei também que há questões a mais nesse problema de tantos zeros. Governo e sociedade são culpados, e muito, inclusive. Esta não valoriza e aquele não dá o suporte necessário. Temos bibliotecas sucateadas, professores mal formados e pessimamente remunerados, uma geração imediatista e hedonista que sofre horrores para focar-se numa atividade por um período amplo (leitura requer isso: foco e intensa dedicação).
          Esse é o diagnóstico da doença. Resta saber se o remédio vai ser oferecido e, principalmente, utilizado. Muitos preferem não ser curados e outros não querem ajudar com a cura. É preciso evitar a epidemia enquanto ainda há tempo.

                                                                                                 Vitor Miranda 

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