terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Os pecados do Êxodo

          Definitivamente não gostei de Êxodo, deuses e reis, do aclamado diretor Ridley Scott. Houve uma grande agitação mundo a fora sobre o filme e, pra variar, entrou em polêmica com proibição de exibição em países como Egito, afinal, filmes com referências bíblicas, como esse, sempre terão uma polêmica aqui e acolá.
          Para mim, o filme engana nas duas possíveis prévias que a maioria do público faz especificamente a respeito dele. Primeiramente, não é uma transposição quase fiel da narrativa bíblica. Moisés (Christian Bale) nem chega a usar a sua "poderosa" arma bíblica, o cajado. Prefere ser mais férreo e manejar uma espada, inclusive, pasmem, para abrir o Mar Vermelho. Óbvio que transpor o livro para o cinema sempre surgem obrigatoriamente mudanças. Suportes distintos, exibições distintas.
          Outro engano do filme é o "baseado na Bíblia", ou seja, filme adaptado com licença poética. Aliás, virou desculpa comum para filmes oriundos de livros explicar os deslizes do texto original ao dizer que estão lançando mão de licença poética. E por que o filme também peca na "licença poética"? Simplesmente porque Ridley Scott não chega nem perto do equilíbrio "texto original / adaptação". Não há sensatez, ou sensibilidade, em usar esta e aquele.
          Scott tem predominantemente preocupação em construir o herói Moisés, e faz mal isso. Quando essa tarefa é deixada de lado, o que se vê é um excesso de tropeços narrativos. O pagamento da dívida que o diretor demonstra ter com o texto original fica pedante. Quem conhece o texto do Êxodo fica constrangido com a tentativa infantil do diretor ao buscar encaixar os eventos bíblicos. Por exemplo, apresentar por apresentar o irmão de Moisés, Aarão. É este com oratória elevada que guia os dizeres de Moisés – tímido e nada eloquente – diante os hebreus no texto oficial. Aarão apenas é forçado pelo diretor a aparecer. Como se quisesse dizer: Ei, brother, estou aqui! Fui!
          Mas tudo bem. Scott não se prender exclusivamente ao texto original é aceitável, pois ele faz cinema. Filme e livro são como barulho e silêncio, não se encontram nunca em harmonia. No entanto, talvez a parte mais precária do filme seja o quão ruim ficou a construção do herói. Ele parece estar pronto e incompleto. Moisés chega a ser bipolar. No episódio em que ele debate com a personificação de Deus, apresentada no filme como um capeta em forma de guri, Moisés contesta a morte futura dos primogênitos e, na sequência, diante o irmão de criação Ramsés (Joel Edgerton) é bem arrogante dizendo algo do tipo: "Apenas crianças egípcias morreram ontem, as dos hebreus, não". Resumindo: meu Deus ama as nossas crianças, e não as suas. O sensível Moisés, como a água para o vinho, instantaneamente metamorfoseou-se. A cena evidencia como não se aprofundou uma construção psicológica do personagem. Tudo é meteórico em Moisés. O amor à primeira vista do herói hebreu é bom nem comentar aqui. É ingenuidade elevada a centenas de raízes cúbicas.
          Sem ser muito analítico, meramente observando questões históricas, pode-se notar outro erro, e para esse não há licença poética à disposição. A construção das pirâmides e outras arquiteturas do Egito exibidas na produção. O filme procura explicitar a escravidão hebreia como fator unívoco da construção monumental egípcia. Bem, ao ler um livro, e são muitos, com credibilidade sobre essa questão de milênios, constata-se que o antigo Egito teve diversificados trabalhadores, inclusive remunerados. Escravos, segundo historiadores, também ajudaram a assar o bolo, talvez até hebreus como relatam Bíblia e filme, todavia, inferir ou subentender que apenas um povo, coagido e torturado, foi o autor das maravilhas dos faraós, já é eclipsar a História.
          Êxodo fracassa em narrar uma história bíblica e também em entregar pronto um enlatado maniqueísta. Se serve de consolo para quem gosta de recursos tecnológicos, o filme usa a muleta dos efeitos 3D. Há quem veja filmes hoje em dia por esse motivo, apenas. E isso é pobre e vazio. Nem ao menos diverte.
          Um filme pode cometer muitos pecados cinematográficos. Scott pratica vários deles e condena seu Êxodo ao inferno qualitativo. Parece não haver salvação ao criador, mas arrependimento de quem assiste por desperdiçar mais de duas horas com a telona.

Vitor Miranda

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